quarta-feira, 15 de julho de 2009

Há noite no Verão ou à noite no Verão

Hoje é o último dia das Festas de Lisboa, com este concerto, e eu pus-me a pensar que ainda não está no tempo de acabarem as festas. Pelo contrário, agora é que me apetece começá-las. Talvez porque o Verão só agora é que assentou meteorologicamente ou porque só agora é que despertei para a ideia, o que é certo é que só recentemente comecei a sentir a mística da noite de Verão.
E o Verão convida à festa, à noite, às ruas cheias de gente. No último fim-de-semana, tive a possibilidade de assistir a metade de um dos espectáculos do Festival ao Largo e, além do enorme prazer que me deu assisti-lo, acrescentou-se o bem-estar de desfrutar de uma noite lisboeta cheia de gente, de vida e de animação.
Agora, as noites enchem as ruas e vice-versa, deixando no ar aquele brilho dos passeios nocturnos à larga, como nas férias de verão na praia, em que se saboreiam gelados fora de horas e se fazem compras em bancas improvisadas. O verão tem dessas coisas e, agora que somos adultos, é bom poder desfrutá-lo mesmo nas nossas cidades. Nesse desfrute tornam-se ainda mais apaixonantes.
A mim e àqueles que, como eu, ainda não partiram para a costa e ainda estão nos seus trabalhos e trânsitos, é a noite que nos chama, restaurando a luminosidade do dia seguinte.
Mudando de paisagem, apetece também sair da cidade e renovar o olhar, inspirando o mesmo prazer da brisa fresca da noite. E deparei-me então com este outro festival, para os lados do Alentejo, que mistura urbano e rural, que parece ambicionar a essa mistura boa de fazer tudo e nada fazer.
É um pouco assim o Verão, mesmo sem férias. Tudo corre, tudo puxa, tudo é uma esplanada em que nada se faz e tudo se é, em que tudo é possível e encontra-se sempre um bom caminho.
Hoje apetece-me veranear para sempre, é um facto.



Imagem do festival Escrita na Paisagem, o tal Festival de Performance e Artes da Terra.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Sede


A UNICEF fez uma acção de rua em Nova Iorque com um impacto extraordinário. Recolheram água suja, engarrafaram-na e colocaram uma "vending machine" a anunciar "Dirty Water".
O filme que podem ver a seguir mostra bem o impacto e o sucesso da acção, mostrando-nos mais uma vez que ideias simples e baratas podem provocar grandes efeitos.
Cada vez se torna mais evidente que para gerar acção nas pessoas é preciso ir ter com elas, surpreendê-las, provocá-las. Na rua, sempre na rua. Já não basta o anúncio bonitinho, é preciso mexer com o dia-a-dia e com a rotina, para fazer a diferença. E quando é por uma boa causa, bem haja o facto de nos alterarem o dia.
E mesmo para quando não funciona para algumas pessoas (como podemos ver no final do filme), funciona para muitas outras. E nessas começará a mudança.





segunda-feira, 13 de julho de 2009

8 minutos para desmontar e voltar a montar

Este pequeno filme de animação de 8 minutos é brilhante.

De uma forma muito simples e clara, coloca uma série de ensinamentos em causa. Principalmente aqueles que nos impedem de ver para além daquilo que nos foi incutido.

A capacidade de vislumbrar a estranheza e não nos sentirmos ameaçados por ela. A capacidade de evoluir com a diferença que felizmente nos bate à porta. Novas fronteiras em oposição a limites arrumados que não correspondem em nada à realidade, em toda a sua força, beleza e diferença.

Quando abrimos um pouco os olhos à diferença, segue-se o coração e depois os braços. E é bom estar de braços abertos para o outro, principalmente depois dos nossos olhos e coração o terem realmente visto.



quinta-feira, 9 de julho de 2009

Mão na boca e areia para os olhos

Só no dia de ontem recebi 4 emails sobre a Gripe A/H1N1/mexicana/suína. Tudo conselhos úteis e relevantes. Todos os dias se ouvem os casos a crescer. A ideia de pandemia cresce, assim como a ideia contra-corrente de que é tudo um esquema mediático das farmacêuticas. Não vou entrar por aí, até porque iria, com certeza, repetir argumentos e chover no molhado sobre um assunto que já está encharcado. A melhor política, parece-me, continua a ser "Eu não acredito em bruxas, mas que as há, há!".

Queria sobretudo falar da relação (muitas vezes inversamente proporcional) entre aquilo que acontece e a percepção do comum dos mortais. Tudo isto a propósito desta imagem.



Reparei nela ontem e achei encantador que se tivesse feito o bonequinho do bicho. Podemos ver a composição genética da gripe: olha aqui está um gene da gripe humana, aqui 2 da saudosa gripe das aves e os porcos, sacanas que vieram dar cabo disto.
Neste cenário, a mim ocorre-me dizer que todos, sentindo-nos impotentes e surpreendidos, precisamos de respostas. Perante uma gripe aparentemente estranha ou outra doença que nos aflige de repente e nos desampara, nós queremos saber porquê e queremos caminhos para seguir.
Este desenho, incompreensível, inofensivo e indiferente, significa a meu ver isso mesmo: um desejo qualquer de materialização do que nos escapa. Como se a gripe tivesse uma cara e, de repente, pudéssemos ver bolas gigantes de Gripe a aproximar-se ou, qual MacGyver, pudéssemos escolher o fio certo a cortar. Lamento, mas nunca acontece.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Os tais novos canais

Ele é twitter, ele é facebook, ele é xiribitatatá... o mundo da internet, com as suas redes sociais, canais de divulgação, plataformas, e urras urras, não pára de evoluir. De tal modo, que já me disseram no outro dia que os blogs estavam desactualizados.
É certo que eu já ando nisto dos blogs desde 2004. Vistas as coisas assim, estou para aqui a escrever posts, ainda que com um ano ou dois de interregno, há quase cinco anos. Em meia década muita coisa acontece - basta olhar para as crianças.
Eu abraço as novas tecnologias de bom grado, mas há plataformas (vamos simplificar) que eu não entendo, ou que pelo menos não consigo acompanhar. Bem sei que, graças à minha profissão, tenho o privilégio e a obrigação de estar sempre ligada, mas neste mundo virtual que a Internet criou há muitas coisas que me escapam. E que quero que continuem assim, enquanto puder.
Habituei-me a ver certos instrumentos da Internet como meios alternativos de contextos comuns não virtuais. Por exemplo, o messenger é um alter-ego distorcido de uma conversa (em modo pior), um blog é uma publicação pública em formato digital, um email é uma carta, um fax, uma circular... Com as devidas distâncias, estes meios partem de algo muito comum na vida social diária para se deslocarem para outra coisa. Mas agora as plataformas estão a criar novas formas de vida social. Estão a liderá-las. Os sms são algo por si só, o twitter também, o Facebook eu sei lá.
Não há nada de mal nisso. Pelo contrário, faz parte da evolução das coisas.
Mas às vezes apetece desligar. E a propósito disso encontrei uma publicidade brilhante. Que me faz pensar que não me importa nada estar desactualizada num certo sentido, se imaginarmos que há livros há centenas de anos.



segunda-feira, 6 de julho de 2009

Desfilemos

Ontem estive no FIG - Festival Internacional de Gigantes, no Pinhal Novo. O festival já vai na 7ª edição e junta a tradição popular dos cabeçudos com o lado mais performativo do espectáculo de rua. Não tive oportunidade de assistir a nenhum espectáculo, mas sim o privilégio de ver o desfile. Em grande festa, com os grupos todos representados, o público pode assistir ao desfile de máscaras e gigantes. Com a presença de vários grupos de percussão, a marcha foi mesmo uma completa animação.

A possibilidade de assistir e/ou integrar um desfile é uma experiência de contaminação. É trazer mesmo a alegria para a rua, a capacidade de nos mostrarmos/olharmos para os outros. E fazer uma grande festa pública.

A pensar nisso, lembrei-me de um outro desfile, a Peregrinação da Expo 98. Já passaram mais de 10 anos, mas a verdade é que muitas daquelas máquinas de cena continuam presentes na nossa memória, ou pelo menos aquela sensação tremenda de estar a ver passar uma das paradas mais espectaculares a que poderíamos assistir. Todos os dias durante a Expo 98, o desfile acontecia, trazendo um imaginário único, cheio de universos alternativos, capaz de cativar todos os públicos, todas as idades.


É esse lado do desfile, transversal, universal e agregador, que me atrai. Seja num acto artístico, seja num acto político, seja num acto popular. Neste acto colectivo de partilha, há lugar para a procissão e para a Marcha do Orgulho.

Um desfile eleva. Tem um objectivo utópico na sua marcha, que se vê na cadência dos que desfilam e na persistência dos que assistem. Um desfile revela-se nas suas passadas. Cresce quando se cumpre o seu caminho, levando consigo mais e mais gente, espalhando beleza, ideias, alegria e festa.

Dá gosto sair à rua.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O que dizemos e o que eles fazem

Qualquer progenitor, e afim, sabe que uma coisa é aquilo que dizemos, mandamos, pedimos, outra totalmente diferente é aquilo que eles fazem. Não porque façam sempre diferente, mas simplesmente porque há um espaço enorme, vasto, amplo entre o nosso "ideal" e a realidade deles. O acto é sempre autónomo, mesmo quando eles são pequeninos, mesmo quando são obedientes. Há sempre uma margem intransponível da incógnita.

Por isso, é que são fantásticos, extraordinários e, tantas outras vezes, exasperantes.

Esta pequena reflexão, pequeníssima, sobre o mundo das crianças que só elas podem dominar, vem a propósito desta campanha de um plano de saúde infantil. Com uma abordagem muito simples, bem humorada, e visualmente muito imediata, a campanha transporta-nos para esse mundo do que nós dizemos e aquilo que eles fazem. Para colocar-nos obviamente no terreno movediço da dúvida, do medo, da insegurança.

Porque sabemos que é mesmo assim, esta campanha funciona. Eles vão sempre fazer qualquer coisa perigosa, excessiva e imprevisível. Porque são livres num sentido muito próprio, são desprovidos da constante auto-censura. Nesse sentido, são brilhantes e inventivos. Nesse sentido, são um potencial perigo.