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sexta-feira, 30 de abril de 2010

o nosso tempo

Sempre adorei música de outros tempos, especialmente a dos anos 80 cativa-me. Não deixei, por isso, de ouvir música actual, nem decidi fazer uma permanente.
Nos últimos tempos, tenho-me aborrecido um pouco com este revivalismo exacerbado. Já passámos pelos hippies, pelos punks, mas agora esta febre dos 80 está a cansar-me um pouco devo confessar. Os penteados e as roupas estão a ficar demais. Vai-se à zara ou à h&m e há tigrezas, zebras, folhos e chumaços por todo o lado.
Não dá! Ontem, depois de ver isto, disse BASTA!
Cansada do psicadélico barroco, assumi os anúncios do Citroën DS3 como meus. Adoro o conceito Anti-retro e aderi a esta "causa". Eles conseguiram com esta campanha fazer uma coisa excelente: pegaram num sentimento que deve ser comum (este cansaço das décadas passadas) verbalizando-o nos ícones dessas mesmas décadas. Acho muito engraçado por isso. Mas gosto fundamentalmente desta formalização tão fechadinha: anti-retro.
Gosto do antigo, não me percebam mal. Gosto da história e da cultura pop, adoro ABBA e Bee Gees, mas já não aguento ver o mau gosto ressurgir como se fosse uma coisa com pinta.


quarta-feira, 21 de abril de 2010

objecto vs. sujeito

Muito se falou da campanha da SuperBock Mini Stout. O "É só puxar", associado a um corpo acéfalo de mulher meio nu, caiu mal a muita gente. Achei a campanha gráfica bem fraquinha, básica, sem graça e obviamente infeliz. Não por pudor, ver maminhas roliças não tem nada de mal, mas sim pela objectificação desnecessária. A campanha de TV falava de prazer e tinha um SPA ideal para apreciadores de Stout. Também tinha as "gajas boas", mas elas não eram o centro. O problema foi desviar o objecto do prazer, na campanha de mupis. Em vez do prazer da cerveja, veio outro prazer. Num entanto, esse prazer sexual continuava a ser exclusivo do apreciador de cerveja - "O prazer é todo seu". O "É só puxar" dava-lhe esse lado de dispor como se quer e apetece, e nem por sombras alguém pensava em puxar a tampa da cerveja.


Em anos e anos de campanhas de Marcas de cerveja, o que houve mais foi objectificação da mulher. A Sagres sempre foi exímia na introdução da gaja boa como motor de vendas. Chegou inclusive a comparar as cores da cerveja com a cor de cabelo e de pele das actrizes brasileiras.
É algo a que estamos habituadas/os. Não acrescenta, não valoriza, mas o pessoal da publicidade (das próprias empresas) deve achar que é isso que atrai o consumidor da cerveja.
A meu ver, é porque não valorizam suficientemente o produto. Há grandes anúncios de cerveja. Basta ver os da Heineken, por exemplo. E depois há os outros.
Tudo isto a propósito de um pack desenvolvido por uma Marca holandesa de cerveja, a Bavaria, destinada a mulheres. Este passo "desviante", inédito em Portugal, assemelha-se, por exemplo, à crescente aproximação dos clubes de futebol às mulheres adeptas, numa renovação do estereótipo habitual. Se falo sobre futebol, não é por acaso, porque o que a Bavaria fez foi colocar no pack um vestido/camisola, desenhado por uma estilista holandesa, para apoiar a selecção laranja no Mundial. O que é que os senhores das cervejas pensaram? É óbvio que não precisamos vender cervejas aos homens durante o Mundial (eles fá-lo-ão "naturalmente"), mas e se as puxarmos a elas? Parece-me um óptimo mote. Sem sair das ideias feitas de moda e de "feminilidade", conseguiram ampliar o conceito, conferindo-lhe dois valores habitualmente associados aos homens: cerveja e futebol.


Não fazia mal aos nossos Senhores da Cerveja olharem para estas coisas e perceberem que há um grande potencial de consumidoras a conquistar.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

paixão com prazer

Há muito tempo que os cadernos Moleskine se tornaram um objecto de culto. Hoje, não existe um tipo de caderno ou agenda, existem dezenas de possibilidades para usar uma Moleskine. Para escrever, para desenhar, para pintar, para fazer o planeamento semanal, para pôr os contactos, para registar viagens, para fazer storyboards, cadernos japoneses, lisos, quadriculados, pautados, A4, A5, A6... um mundo inesgotável.

O detalhe, a atenção pelo consumidor e a lenda tornam qualquer Moleskine irresistível.
Agora lançaram uma nova colecção: Moleskine Passions. Os cadernos das paixões dividem-se em Livros, Filmes, Vinhos, Receitas, Música e Bem-estar.


Mais uma ideia brilhante para cativar a malta. Porque alia o carácter emblemático da Marca às paixões de cada um, tornando o objecto ainda mais irresistível.
Os vídeos de apresentação também são uma delícia. Deixo-vos aqui o dos livros e podem ver os outros por aqui.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

mudar

Já está no ar (em mupis e na tv) a campanha da ILGA que se foca na questão da homossexualidade na paternidade e maternidade.
Vi primeiro o mupi e agradou-me o levantar da questão. "Se a tua mãe fosse lésbica, mudava alguma coisa?". É uma pergunta, exige uma resposta. De forma imediata, diríamos sim, não, talvez. Mas o melhor de tudo é que a pergunta está feita de um modo que exige o essencial. Podia mudar tudo, mas não mudaria o essencial. Nem o amor, nem a dádiva, nem o compromisso.




Acho fantástico que haja uma campanha (pro bono e bem feita pela Lowe) sobre este tema. Mas o que acho ainda mais notável é que seja uma campanha envolvente e não afirmativa, que seja inclusiva e não exclusiva. Todos podemos rever-nos neste registo.
Obviamente que há outra tónica dominante: o conceito inverte o habitual. E nisso o spot de tv é realmente eficaz, criando um desfecho inesperado para a maior parte do público.



Pessoalmente, acho que esta dimensão familiar é fundamental para reenquadrar a questão, libertando-nos de certos vícios que uma sociedade normalizada impõe, mas que também um certo activismo propõe. Gosto deste activismo, acho-o honesto, acho-o integrador, acho-o generoso para aqueles que nos rodeiam, que nos amam, para nós próprios.

Parabéns ILGA (obviamente por tudo) e Lowe (pelo que não é óbvio no pro bono).

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Packaging querido

Ser pró e anti-packaging ao mesmo tempo é possível. O Aristóteles estava enganado com a cena da impossibilidade de ser e não ser ao mesmo tempo. É possível, por muito que qualquer frase que comece com "o aristóteles estava enganado..." seja absolutamente ridícula e nunca para levar a sério.
O que interessa neste caso é o packaging.
O packaging é o paradigma do design de produto. É o que mais directamente intervém com o consumidor e o que mais nos afecta. Em termos de comunicação, é um verdadeiro desafio. Em termos sociais (com a abrangência que isso significa), pode ter um impacto e uma força que outras expressões do design dificilmente terão. É muito nesse sentido que sou pró-packaging. Porque adoro ver bom packaging, porque é um desafio profissional e porque me puxa em termos sociais.
Os exemplos de bom packaging são muitos (tanto a nível estético-ergonómico, como social-sustentável). Os maus exemplos são quase todos - afinal esses muitos bons exemplos são minoritários.
E é talvez por isso que sou anti-packaging também. O mau packaging começa a meu ver quando é inútil. Os casos mais simples de todos são os mais flagrantes como, por exemplo, os sacos da fruta, os legumes pré-embalados (que não nos deixam escolher nem o produto nem a sua quantidade) ou grandes caixas para equipamentos pequenos (uma tendência felizmente a mudar). É puro desperdício, plástico e mais plástico para nada.
Hoje, um dos grandes desafios é a reutilização, o cuidado na escolha dos materiais, a inteligência do seu design para fazer uma embalagem nossa amiga. Mas, antes de tudo, hoje um produto deve perguntar-se (através dos seus engenheiros) se precisa de packaging. Depois disso, o consumidor pode fazer o seu papel escolhendo.
É uma cadeia em que os diferentes protagonistas vão mudando tendências, reinventando hábitos.
Partilho convosco um packaging que, em termos de comunicação, considero perfeito, sem considerar a sustentabilidade. E outro exemplo de renúncia ao packaging que integra essa ideia de que todos podemos ter um papel para diminuir o desperdício.
O primeiro caso é o "Clever healthy food packaging". Aqui, o packaging serve o objectivo da comunicação e fá-lo brilhantemente. Para levar as pessoas a ter uma alimentação saudável, pegaram em embalagens normalmente associadas a hábitos pouco saudáveis, como tabaco ou junk food, colocando dentro deles comidinha boa. Num certo sentido, é o reinventar dos cigarrinhos de chocolate, mas com cenourinhas.



O outro exemplo passa mais pela intervenção do cidadão comum: uma loja que não tem embalagens. A Unpackaged vende os seus produtos à antiga portuguesa, mas em Londres. Os clientes trazem as suas próprias embalagens de casa ou adquirem uma reutilizável no próprio local. Há escolha de produto, há sustentabilidade, mas acima de tudo há uma ideia mobilizadora, um conceito disruptivo, uma razão carismática para trazer lá mais gente e mudar velhos hábitos.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

The macho is here

O Wall Street Institute já nos tem brindado com algumas campanhas publicitárias bastante interessantes, normalmente apimentadas com humor (esta ou esta são bons exemplos). Desta vez, foram buscar o Zezé Camarinha, o expoente máximo do nosso macho latino, o pintas do pintas, e satirizam sobre o seu inglês.
Supostamente apreciado pelas nossas turistas bifas, o Zezé parece-me o embaixador perfeito para ilustrar o "bem falante" de inglês.

Esta campanha é desconcertante. Colocar o Zezé encarnando-se a si mesmo, expondo os seus dotes de de galã e de inglês, é uma tirada arrojada e cada vez mais rara. O risco de fazer publicidade cómica, sem ser com os Gato Fedorento, é falhar o alvo, ser brejeiro, básico ou pouco feliz. Neste caso e a meu ver, o WSI ganhou a cartada. Dá-nos um espelho, ainda que deformado, de nós próprios e pisca um olho a todos os que gostam de aportuguesar a língua inglesa. Depois de Lauro Dérmio, tudo é possível e ficamos com mais um bom exemplo.
Com este nível de publicidade, dificilmente o WSI terá concorrência à altura no ensino de inglês para adultos. Coisas destas não passam despercebidas e constroem uma percepção forte de uma marca, para durar por algum tempo.

Numa palavra, this stuff cativates à brave.


sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

prendas de Natal VI - o embrulho

Para terminar esta série e mandar definitivamente o Natal para 2009, fica um último post sobre as prendas inimagináveis e megalómanas, contrariando a tendência apresentada no post "prendas de Natal IV"
Todos nós, ou pelo menos alguns de nós, temos desejos "superlativos" e fantasiosos de mega-prendas. Alguns de nós, ou deles melhor dizendo, conseguem realizar esses desejos. Nós contentamo-nos, e bem, em realizar pequenos desejos, com intenções generosas de amor.
Mas os outros desejos existem, tal como as fantasias de "o que é que farias se ganhasses o euromilhões".
Pegando nisso, a Mini fez uma campanha pós-natal absolutamente fabulosa. Atacando mais uma vez a rua, intervindo directamente no quotidiano das pessoas, colocaram perto dos caixotes do lixo uma "embalagem" de um Mini, como se tivesse sido desembrulhada na noite de Natal. O impacto de um caixote de papel gigante no meio da rua é incontornável, provocando tanto estranheza como curiosidade. Podem ver o filme e mais imagens aqui.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

publicidade que sobressai

Anda para aí uma campanha muito inteligente de roupa interior masculina. Com piada, irreverência e simplicidade, a unno fez um mupi que funciona na perfeição. Confesso que, quando o vi pela primeira vez, pensei que havia para aí muito vandalismo à solta, mas afinal não.

Com um sugestivo copy, "Conforto que sobressai", temos uma comum foto de um modelo masculino em "trajes menores" mas com um excelente twist: o mupi está aparentemente estilhaçado na zona genital do homem.
Esta campanha consegue plenamente satisfazer os seus targets: os homens, porque percebem que podem parecer "avantajados", qualidade que muito estimam, e ao mesmo tempo sentirem-se confortáveis; e as mulheres heterossexuais, porque acham graça à ideia de oferecer uma "tanguinha" cuja diferença "salta" à vista.
Será brejeiro? Nada disso. É inteligente, apela a "valores" instituídos e enraizados, sem fazer mal a ninguém. Fala directamente ao "coração" de quem se destina.
O facto deste post estar cheio de aspas é significativo, claro. A campanha está carregada de um duplo sentido, totalmente óbvio, mas essencialmente brincalhão, como as pessoas gostam. Toda a gente adora fazer trocadilhos sexuais inofensivos, é uma espécie de paródia ensaiada de salão em que todos se sentem confortáveis com as insinuações.
Esta campanha é uma insinuação brincalhona, que não se "arma aos cucos" como a maior parte da comunicação de roupa interior. Ninguém está à espera de "sobressair" tanto, mas quase todos gostam de brincar sobre isso.
Até agora, parece-me a campanha de "Natal" (estas aspas são só para enganar) mais bem conseguida. Utilizam-se os meios convencionais de uma forma original e simples, sem medos que o produto "não se veja" ou que a mensagem não seja suficientemente "sexy". É inteligente e básica ao mesmo tempo, o que, a meu ver, é um talento.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Protestar compensa

Hoje estou especialmente contente. A razão talvez seja pequena, mas na verdade sabe-me a grande. Uma palavra no dicionário mudou por minha causa. E estranhamente isso dá-me a sensação de influir na percepção de todos aqueles que, no futuro, consultem esta palavra que mudei. Mérito também para o Priberam, que aceitou a minha sugestão e reclamação, mudando o significado da palavra cavalona.
Se, agora, forem ver o link, além de encontrarem o significado de cavalão, verão o significado informal de cavalona como "mulher alta e corpulenta". Ontem, no entanto, não era esse o significado que estava estampado. O que era referido era que uma cavalona supostamente seria uma "mulher alta com andar e gestos impróprios do sexo". É claro que tive de me insurgir e enviei este email (cliquem para ver melhor).

Estou a partilhar isto por dois motivos:
1. Pelas razões apresentadas no email. O que será isso de "gestos impróprios do sexo"? Como se transforma algo tão subjectivo e estereotipado em algo objectivo como um significado de dicionário? Pelo erro crasso de confundir uma construção social (o género) com o sexo em si. Pelo acto irreflectido que um Dicionário não pode cometer.
2. Pelo resultado. Eles responderam-me e mudaram o significado, como podem ver no site. O que significa que estão atentos e dispostos a mudar se acharem pertinente. E, mais importante, significa que nós temos uma voz. Que cada um de nós deve falar, indignar-se, protestar, quando algo acontece à nossa frente, pelos nossos olhos adentro, que nos choca, ofende, magoa.

Acho que todos podemos fazer a nossa parte. Devagar ou aos poucos. Sem sequer saber que estamos a fazer a nossa parte, mas que estamos sim a deixar a nossa voz falar.
Por causa disto tudo fiquei com esta canção na cabeça, partilhando assim um pouco desta motivação em fazer algo pequeno que pode mudar as coisas, mesmo as mais insignificantes ou as cavalonas.



segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Diverte-te

A teoria é simples: a diversão muda o nosso comportamento, isto é, se algo nos diverte fazemo-lo com mais facilidade. Chama-se The fun theory e é uma iniciativa da Volkswagen.
Através de um conjunto de experiências, reúnem pequenas provas desta grande teoria. E, bem feitas como estão, é claro que só podiam resultar.
A iniciativa é mais que uma acção viral. Tem um concurso incluído (até 15 de Novembro, corram!) para ideias loucas e divertidas que ajudem a alterar comportamentos. E se forem delirantes ainda melhor.
A imaginação que esta equipa colocou nestes três exemplos que mostro em baixo podia ajudar-nos a salvar o mundo, parece-me. Com tempo e orçamento, nada como a diversão para pôr as pessoas a fazer o que é preciso. Haja alegria e boas ideias.
A Volkswagen, por outro lado, consegue notoriedade e aumenta a boa onda do consumidor em relação à marca. Admiro sempre o arrojo de certas iniciativas que, no final, se revelam absolutamente redondinhas, cativantes, fascinantes e, quem sabe, alteradoras de comportamentos. Uma grande ideia gera gozo e mais potencial criativo. E aquilo que acontece em Estocolmo passa a ter repercussões globais. Todos podemos partilhar enfim o fascínio pela brincadeira e pela simplicidade.








quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Ah sacanas

Quando os publicitários fazem coisas que eu adoro, como este anúncio que aqui vem, só me apetece chamar-lhes nomes. E isso quer dizer que fico chateada, feliz da vida, invejosa, encantada... Tal e qual como este anúncio, as palavras podem ser tanta coisa, tanta tanta. E eles aqui só revelam um bocadinho, mas uma pessoa prende-se pelas possibilidades.

No final não interessa nada qual é a marca ou o produto anunciado. Para mim, é a melhor publicidade, porque a ideia vai permanecer muito mais tempo assim. E a marca virá associada por arrasto.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

vida em par

Depois desta campanha de prevenção do Cancro da Mama, deparei-me com esta outra, de uma revista holandesa chamada Pink Ribbon, também contra a doença.

A outra subvertia os padrões associados à doença, veiculando a mensagem de que as mamas são para se gostar e para se cuidar, e esta volta a recolocar o cerne da questão, propondo uma abordagem diferente. Não tão bem humorada e cómica, mas igualmente original.
Gosto sobretudo desta ideia de humanizar as mamas, como se fossem um par que deve viver inseparavelmente, trazendo consigo memórias comuns e histórias que só elas podem contar. Além disso, a campanha (principalmente a parte gráfica) está visualmente muito bem feita. Sem ser tão disruptiva como a primeira, é no entanto muito eficaz a transmitir esse valor insubstituível das mamas.






quinta-feira, 24 de setembro de 2009

sem tronco nem membros

As campanhas virais estão a crescer, acompanhando a crescente adesão aos novos modos de comunicação, entretenimento e redes sociais. Hoje em dia, uma marca pode ter um sucesso estrondoso apenas pelo passa a palavra, que agora é mais conhecido por post e emails e chats. Para atingir um determinado tipo de audiência, já não precisa de spots publicitários, nem de outdoors nem de mupis nem de anúncios de imprensa. Basta simplesmente estar na internet com uma acção, filme, jogo, suficientemente diferenciadores para pôr "todo o mundo" a clicar.

Tudo isto a propósito do Quique The Head, uma campanha da Diesel que tem tudo de absurdo como de genial. E não é exagero. É a história de uma pessoa que nasceu só com cabeça e que, agora, tem a oportunidade médica de arranjar um corpo. O vídeo que fizeram retrata a vida do sujeito, o Quique, e é hilariante.
O que é desafiante nesta nova forma das marcas comunicarem é a quase total liberdade. As ideias absurdas, inteligentes, sinistras, bizarras, têm lugar, sem serem à partida barradas por limitações de formato e de critérios de comunicação para as massas. Quantas vezes um criativo já ouviu a frase "as pessoas não vão perceber", chumbando à partida determinada ideia por ser pouco convencional? É uma constante.
Parece-me igualmente desafiante porque nem todos estarão preparados. É difícil desformatarmo-nos desses códigos conhecidos e convencionados e apostarmos na explosão de ideias com efeito viral explosivo, porque o caminho está ainda muito por trilhar. Na verdade, o trabalho criativo da comunicação (e não só) passa também por conhecer esses códigos e as possibilidades "lógicas" de cada projecto a desenvolver. Esta audácia, no percurso profissional, foi muitas vezes apagada, colocando-nos muitas vezes em posição de defesa e algum conformismo.
Surgirem estes desafios e conseguirmos agarrá-los nem sempre é fácil, mas acho que esta campanha da Diesel dá-nos uma "pica" renovada para perdermos a cabeça.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Amar as mamas

Objectivar (tanto de forma estética como sexual) as mamas para depois dizer que é preciso salvá-las é um acto arrojado, porque politicamente muito incorrecto. Mas é isso que faz esta campanha viral da associação canadiana Re-think Breast Cancer, com intenção de envolver e chamar a atenção para a questão do Cancro da Mama.
A Campanha "Save the Boobs!" integra-se no projecto Boobyball, cuja missão é inspirar novos filantrópicos para a causa, e com certeza consciencializar uma nova geração para a doença.
Dentro desse espírito, o evento preparado para 2 de Outubro é um cruzeiro em que se promete verdadeiramente festa.
Toda a abordagem à temática é disruptiva. Foge de qualquer cliché de campanhas contra o Cancro e fomenta uma atitude meio louca em relação ao assunto. Mas aí é que está o busílis: a prevenção deve ser uma festa. Qualquer que seja o cancro. Mas neste caso, tratando-se de maminhas, o elogio da festa parece mais fácil.


terça-feira, 15 de setembro de 2009

amar o monstro

Há anúncios que são brilhantes, anúncios que fogem ao convencional, que arriscam ao ponto de perdermos o referencial em causa (neste caso um carro) para sermos unicamente cativados pelo filme em si.
Adorei este anúncio, e mais uma vez tem a assinatura aqui dos nossos hermanos do lado. Arriba arriba!


terça-feira, 11 de agosto de 2009

se um desconhecido te aborda na rua, isso é alzheimer?

Já tenho escrito sobre o poder da rua. Sobre como o impacto de uma campanha é totalmente diferente quando somos confrontados na nossa rotina, no nosso meio. Uma acção de rua, de guerrilha, de intervenção directa, mexe muito mais connosco, dedicamos-lhe muito mais atenção. Torna-se, de algum modo, pessoal.

Ainda estamos no começo disto tudo. Quem sabe, estas situações se vão tornando indiferentes e invisíveis como agora são outdoors, mupis, ou promotores a distribuir papéis no meio da rua. Mas, penso que não, pelo menos não tão cedo deixará de fazer sentido esta intervenção pública.

É claro que tudo isto se torna mais fascinante quando as acções são por boas causas, ou quando são artísticas ou políticas, mas também as marcas têm o seu espaço quando encontram algum motivo significativo para fazerem essa abordagem, para além do "comprem isto, adiram àquilo".

Desta vez, volto à acção de rua com uma campanha de sensibilização para a doença de Alzheimer. Esta acção espanhola mostra como, com tão pouco espalhafato, se pode realmente marcar um público, de uma forma individual e muito pessoal. Vejam a simplicidade desta ideia, com uma eficácia fenomenal.


quinta-feira, 30 de julho de 2009

De facto, temos de nos perguntar...

Vi este anúncio e paralisei. Voltamos à publicidade incompreensível. Digo-vos: esta é mesmo absurda. Vejam-na, leiam-na e depois expliquem-me. A minha percepção vem já a seguir.



Primeiro de tudo o headline. Não sei o que me aconteceu ou ao anúncio, mas eu não li "Pergunte-nos", eu li "askus", pensando tornar-se de uma variação moderna para ascos, uma coisa que mete mesmo nojo. A imagem também ajudou a essa leitura obviamente. Aquele sujeito com ar duvidoso agarrado a dois animais parece mesmo um taradão por bichinhos e não um senhor honrado, lamento. Daí o asco fazer sentido. Lendo o body copy, percebemos que o touro e o urso são provavelmente as conjunturas do mercado, com as quais temos de viver lado a lado. Hã????
Depois disto tudo, uma pessoa não quer saber. São consultores, ya! Alguém podia fazer-lhes consultoria de publicidade e livrar-nos de coisa tão bizarra?!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

"Impousável"

As palavras serão sempre um dos meus objectos predilectos, apaixonantes sem ser ao ponto de não querer mudá-las, mas dignas de amor, de cuidado laborioso e de tango.

Ou as encontramos ou elas encontram-nos a nós. No primeiro caso, criamo-las, no segundo criam e recriam-nos elas a nós. Ou as escrevemos ou as lemos. É possível ser fiel aos seus dois modos de ser, porque no fundo são uma e a mesma, outra em espelho, em sequência, em rodopio.
São amantes exigentes, quando nos deixamos despojar, quando nos arrebatam. São parceiras constantes quando as deixamos de lado, aguardando o momento, suspendendo a ansiedade mas mantendo a intimidade. São uma confidência, um segredo, um desabafo. São o mundo todo, sem nunca o serem.
E não cedem a elogios, porque são apenas caprichos da sua natureza.
Tudo isto a propósito destas duas campanhas, a meu ver brilhantes. Uma da Rolling Stone, sobre a tentativa de matar palavras (cliquem na imagem para ler, vale a pena), e outra da editora Penguin.




quarta-feira, 22 de julho de 2009

Dói-me aqui

Existe uma marca farmacêutica que se chama HELP, o que em si mesmo já é um nome que me cativa. Não quer dizer outra coisa que não o que é: ajuda, socorro, etc. Ver isto, na minha área, é uma grande alegria. Não complica, não aspira a outra coisa, não dá uma volta de 180º para dizer o que quer. É aquilo e só aquilo. É óbvio que não resulta sempre, mas este caso parece-me bastante feliz.
Têm umas embalagens ainda menos complicadas, para tornar a sua comunicação absolutamente compreensível e eficaz.



Com uma mensagem directa sobre os sintomas, torna a aquisição ainda mais fácil e simples. Imagino que, sendo a Help uma marca norte-americana, a lógica de packaging utilizada é dirigida mesmo à prateleira, possibilitando ao consumidor adquirir pela sua própria mão o produto em causa.
É certo que isto levanta uma série de questões éticas, por se tratar de um produto médico, fazendo-nos questionar se algo que interfere com o nosso bem-estar físico deva estar assim à mão de semear.
Para mim, parece-me simples. Não tão simples como as embalagens, mas simples como os sintomas que pretende atacar. A diferença entre dizer analgésico, ansiolítico, anti-histamíco, anti-inflamatório e dizer contra as dores, contra a ansiedade, contra as alergias e contra as inflamações é toda. É democratizar a linguagem e não nos tornar todos médicos de bancada, que acham que dominam alguma coisa por dizer estes palavrões.
Todos estes medicamentos podem ser adquiridos numa farmácia sem sequer precisar do aval do farmacêutico. Basta dizer o nome. Assim parece-me mais fixe. Mesmo que uma pessoa não grite "Socorro, ajudem-me! dói-me a cabeça!" haverá uma embalagem a solidarizar-se com a nossa dor.
Agora só falta inventarem a marca "Água! Tenho sede!" para completar o quadro.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

o valor social da coisa

Um dos dilemas persistentes neste meio, ou pelo menos nalgumas pessoas (pronto, em mim), é o valor social da comunicação, o seu contributo para a sociedade. O design não vai salvar o mundo, como diz a imagem aqui do lado, mas pode dar um jeitinho ou, pelo contrário, estragar tudo.

Aprendi a viver com isso e, nos entretantos, vou encontrando formas de colocar esta especialização da comunicação a favor de valores positivos para a sociedade. Quem somos define o que fazemos e, por isso, uma parte de nós também é definida pelo que fazemos. Manter essa dialéctica em equilíbrio é uma luta constante da qual nem sempre temos consciência.

Ter noção do que se transmite e do impacto que pode criar nos outros é um passo decisivo para podermos contribuir subtilmente para mudanças sociais e de mentalidades ou, pelo menos, não ajudar a manter códigos negativos.

Dentro desta reflexão, há no entanto momentos na profissão Comunicação em que podemos mesmo ajudar a uma sociedade melhor. Quando o cliente é uma organização com objectivos sociais, é como se finalmente estivéssemos do lado certo e, em vez dos sabonetes, podemos "vender" causas.

A Osocio é uma organização que promove publicidade social e campanhas não-lucrativas a nível internacional. Lançou recentemente uma campanha para publicitários, promovendo isso mesmo, provocando-os a envolverem-se em causas da forma mais eficaz que têm ao seu dispor: a sua ferramenta de trabalho. A campanha, muito bem esgalhada, pega numa característica infelizmente comum neste meio, a vaidade e uma certa snobeira, comparando os prémios que se ganham a causas realmente importantes.

É também por isso que, às vezes só às vezes, esta profissão é apaixonante. Não só pelo que podemos comunicar, mas também pela faísca da ideia - aquele momento em que encontramos uma forma realmente boa de fazer passar uma mensagem, mas isso já é outra história.