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quarta-feira, 21 de abril de 2010

objecto vs. sujeito

Muito se falou da campanha da SuperBock Mini Stout. O "É só puxar", associado a um corpo acéfalo de mulher meio nu, caiu mal a muita gente. Achei a campanha gráfica bem fraquinha, básica, sem graça e obviamente infeliz. Não por pudor, ver maminhas roliças não tem nada de mal, mas sim pela objectificação desnecessária. A campanha de TV falava de prazer e tinha um SPA ideal para apreciadores de Stout. Também tinha as "gajas boas", mas elas não eram o centro. O problema foi desviar o objecto do prazer, na campanha de mupis. Em vez do prazer da cerveja, veio outro prazer. Num entanto, esse prazer sexual continuava a ser exclusivo do apreciador de cerveja - "O prazer é todo seu". O "É só puxar" dava-lhe esse lado de dispor como se quer e apetece, e nem por sombras alguém pensava em puxar a tampa da cerveja.


Em anos e anos de campanhas de Marcas de cerveja, o que houve mais foi objectificação da mulher. A Sagres sempre foi exímia na introdução da gaja boa como motor de vendas. Chegou inclusive a comparar as cores da cerveja com a cor de cabelo e de pele das actrizes brasileiras.
É algo a que estamos habituadas/os. Não acrescenta, não valoriza, mas o pessoal da publicidade (das próprias empresas) deve achar que é isso que atrai o consumidor da cerveja.
A meu ver, é porque não valorizam suficientemente o produto. Há grandes anúncios de cerveja. Basta ver os da Heineken, por exemplo. E depois há os outros.
Tudo isto a propósito de um pack desenvolvido por uma Marca holandesa de cerveja, a Bavaria, destinada a mulheres. Este passo "desviante", inédito em Portugal, assemelha-se, por exemplo, à crescente aproximação dos clubes de futebol às mulheres adeptas, numa renovação do estereótipo habitual. Se falo sobre futebol, não é por acaso, porque o que a Bavaria fez foi colocar no pack um vestido/camisola, desenhado por uma estilista holandesa, para apoiar a selecção laranja no Mundial. O que é que os senhores das cervejas pensaram? É óbvio que não precisamos vender cervejas aos homens durante o Mundial (eles fá-lo-ão "naturalmente"), mas e se as puxarmos a elas? Parece-me um óptimo mote. Sem sair das ideias feitas de moda e de "feminilidade", conseguiram ampliar o conceito, conferindo-lhe dois valores habitualmente associados aos homens: cerveja e futebol.


Não fazia mal aos nossos Senhores da Cerveja olharem para estas coisas e perceberem que há um grande potencial de consumidoras a conquistar.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

gato por lebre

Por estes dias, tenho-me deliciado algumas vezes com os programas do Jamie Oliver, desde o Jamie's American Road Trip ou o mais antigo Ministry of Food. Encanta-me sempre a postura, a atitude perante a comida e perante a vida. Há quem diga que, como chef, não é assim grande coisa, mas não há dúvidas que o homem tem um talento nato para mover. Envolve, cativa, inspira. Sempre com a comida, e com toda a cultura associada, à frente (ia dizer atrás mas é mesmo à frente, a meu ver).
Num desses dias de programa, no intervalo deparo-me com a nova campanha da Knorr, com o chef Henrique Sá Pessoa. Segundo dizem é um grande chef e não duvido. Gostava muito do conceito do seu programa televisivo e, de fonte segura, o seu restaurante parece que é um achado.
O anúncio está bem feito, é giro, tem graça. A Knorr deve estar delirante. Quanto ao chef, já não posso dizer o mesmo. Na verdade, a mim não me chateia nada que um chef faça publicidade a cervejas ou a azeite. Encanta-me muito menos que faça campanha por um aditivo alimentar, independentemente da sua qualidade. Ou seja, dizerem-me a mim que posso ser uma Sá Pessoa se acrescentar um pouquinho de um caldo em pacote, faz-me duvidar se quero lá chegar. É como se tivesse de fazer batota.
Para o produto? É excelente, sem dúvida alguma. Representa notoriedade, credibilidade e genuinidade. Para o chef? A meu ver, tira-lhe isso tudo.
Não deixo de querer ir experimentar o seu restaurante, mas acho que levarei alguma desconfiança no palato.
Há associações publicitárias que nem sempre correm bem para as partes. E até as caras mais credíveis se podem tornar num verdadeiro embaraço para uma marca (por exemplo, o Carlos Cruz). Neste caso, o dano vai mais para o chef. Mas isso sou só eu.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Packaging querido

Ser pró e anti-packaging ao mesmo tempo é possível. O Aristóteles estava enganado com a cena da impossibilidade de ser e não ser ao mesmo tempo. É possível, por muito que qualquer frase que comece com "o aristóteles estava enganado..." seja absolutamente ridícula e nunca para levar a sério.
O que interessa neste caso é o packaging.
O packaging é o paradigma do design de produto. É o que mais directamente intervém com o consumidor e o que mais nos afecta. Em termos de comunicação, é um verdadeiro desafio. Em termos sociais (com a abrangência que isso significa), pode ter um impacto e uma força que outras expressões do design dificilmente terão. É muito nesse sentido que sou pró-packaging. Porque adoro ver bom packaging, porque é um desafio profissional e porque me puxa em termos sociais.
Os exemplos de bom packaging são muitos (tanto a nível estético-ergonómico, como social-sustentável). Os maus exemplos são quase todos - afinal esses muitos bons exemplos são minoritários.
E é talvez por isso que sou anti-packaging também. O mau packaging começa a meu ver quando é inútil. Os casos mais simples de todos são os mais flagrantes como, por exemplo, os sacos da fruta, os legumes pré-embalados (que não nos deixam escolher nem o produto nem a sua quantidade) ou grandes caixas para equipamentos pequenos (uma tendência felizmente a mudar). É puro desperdício, plástico e mais plástico para nada.
Hoje, um dos grandes desafios é a reutilização, o cuidado na escolha dos materiais, a inteligência do seu design para fazer uma embalagem nossa amiga. Mas, antes de tudo, hoje um produto deve perguntar-se (através dos seus engenheiros) se precisa de packaging. Depois disso, o consumidor pode fazer o seu papel escolhendo.
É uma cadeia em que os diferentes protagonistas vão mudando tendências, reinventando hábitos.
Partilho convosco um packaging que, em termos de comunicação, considero perfeito, sem considerar a sustentabilidade. E outro exemplo de renúncia ao packaging que integra essa ideia de que todos podemos ter um papel para diminuir o desperdício.
O primeiro caso é o "Clever healthy food packaging". Aqui, o packaging serve o objectivo da comunicação e fá-lo brilhantemente. Para levar as pessoas a ter uma alimentação saudável, pegaram em embalagens normalmente associadas a hábitos pouco saudáveis, como tabaco ou junk food, colocando dentro deles comidinha boa. Num certo sentido, é o reinventar dos cigarrinhos de chocolate, mas com cenourinhas.



O outro exemplo passa mais pela intervenção do cidadão comum: uma loja que não tem embalagens. A Unpackaged vende os seus produtos à antiga portuguesa, mas em Londres. Os clientes trazem as suas próprias embalagens de casa ou adquirem uma reutilizável no próprio local. Há escolha de produto, há sustentabilidade, mas acima de tudo há uma ideia mobilizadora, um conceito disruptivo, uma razão carismática para trazer lá mais gente e mudar velhos hábitos.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

É natal, é natal! - Bravo e Buuu

Eu gosto muito do Natal. Tenho destas coisas, de apreciar as iluminações na rua, de gostar de fazer a árvore de Natal, dos embrulhos e até das prendas. Sei bem que já não tem metade da piada do que teve, por muitas e variadas razões, mas consigo reencontrar o sentido de uma outra forma. A excitação das prendas deu uma volta grande e, agora, sei que passa muito mais por dar do que por receber. Não me levem demasiado a sério as pessoas que me vão oferecer prenda, porque estou a contar convosco. Refiro-me mais às listas. Antes fazia listas do que queria receber, agora a lista é das prendas que vou dar. E o quadro é inevitável diferente, mas sabe maravilhosamente bem, mesmo quando é absolutamente stressante. O Natal tem qualquer coisa de advérbio de modo, mesmo. É alegremente, familiarmente, generosamente, sofregamente, singelamente, exageradamente que me entrego a este ritual, que se expande cada vez mais. Este ano, pela primeira vez, tenho já quase todas as prendas de Natal compradas e preparadas. Antecipei-me, mas não minimizei o stress. Afinal, tentar comprar todas as prendas antes dos outros começarem sequer a comprá-las pode tornar-se uma fasquia demasiado alta.
Insisto num ponto: não sou consumista. Mas consumo demais o Natal, é um facto.
Mas este post não é de auto-análise (ai que sono), mas sim sobre duas coisas: a iluminação de Natal do Camões, em Lisboa, e os brinquedos "concebidos para rapazes".
Bravo para a iluminação de Natal do Camões, assinada pela CML. Um coração suspenso, enorme, pleno de luz e cor, já era brilharete suficiente. Mas, além disso, tem um mupi associado, com um botão para as pessoas tocarem e mudarem a cor do "coração da cidade". É demais! É ver o coração mudar de cor pela interacção das pessoas, satisfeitas por poderem interferir directamente na iluminação do local. Num tempo de receios de pandemia, tem uma certa graça ver as pessoas simplesmente a quererem brincar.
Buu para a publicidade nos canais infantis. É insuportável, dói ver. Eu levo com os pandas, nickelodeons, disney channels, boomerangs da vida, o ano todo e nada é comparável ao que acontece na altura do Natal. É realmente obscena a quantidade de anúncios a brinquedos. Uns idiotas, outros absolutamente idiotas... mas todos demais. Um excesso incomparável que dá cabo da cabeça das crianças, por poderem achar imaginável sequer que aqueles brinquedos são alguma coisa de jeito. Enfim... ontem vi o meu preferido. Não me lembro que brinquedo era, o que é uma pena para o apelo ao boicote. Sei que eram carrinhos a descerem por rampas. No final, a voz off dizia aos pais, não fosse dar-se o caso de eles terem ideias estranhas, "concebido para rapazes". Assim tal e qual, sem tirar nem pôr: aquele brinquedo é "concebido para rapazes", por isso estão por vossa conta e risco se decidirem outra coisa qualquer. Um brinquedo é um brinquedo e pode ser concebido para quem eles quiserem, mas no final, haja esperança, nós é que decidimos que brinquedos queremos que os nossos filhos e as nossas filhas usem. Se calhar, mais valia começar a dedicarem-se a fazer brinquedos concebidos para brincar, mas talvez seja uma sugestão parva, porque depois os hipermercados não saberiam como arrumar a cangalhada nas suas prateleiras.
Adoro o Natal, é verdade. Mas prefiro as iluminações das Câmaras à publicidade.


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

é preciso ter lata

Muito se fala da nova comunicação do Pingo Doce e como é pirosa, pindérica, enjoativa, etc. Mas depois de ver hoje, pela primeira vez, a campanha da emel (essa grande empresa municipal com o maior índice de tentativas de atropelamento dos seus funcionários), venha daí a piroseira, pois é preferível à demagogia e populismo.

A campanha assenta em duas ideias falsas: a emel pode salvar-me a vida e facilitá-la até. Usando a imagem de um bloco operatório, em que médicos e enfermeiros fazem um ar entediado e expectante, o anúncio sugere que, por causa de um carro em segunda fila, há uma pessoa que não está a ser operada. Vejam.



Esta dramatização sensacionalista é chocante. Por várias razões. Primeiro, é mentira, já que a emel não tem nada a ver com carros estacionados em 2ªfila, isso é um assunto da polícia (ver correcção nos comentários). Depois, constrói uma situação absurda, negativa e dramática, para projectar-se de uma forma pouco digna ou que tenha sequer a ver com os benefícios directos da emel para a cidade.
Na verdade, ninguém gosta da emel. Nunca ouvi ninguém dizer "ah, a emel, grande empresa, grande trabalho". Eu entendo, a função deles é dura e pouco popular. A comunicação deve evidentemente combater essa percepção, mas não tentando criar uma nova percepção absolutamente desfasada da realidade.
A emel tem uma função importantíssima na cidade. Promove uma coisa imperativa na vida urbana quotidiana: dissuadir o uso de automóveis individuais. Pode ser desagradável, e é muito, mas é um mal necessário. As pessoas queixam-se mas, no fundo, sabem que é preciso. Este trabalho duro que alguém tem de fazer é meritório por si só, mas por favor não tentem que a população goste de vocês, porque isso não vai acontecer nunca.
Um polícia pode salvar-nos a vida, assim como um bombeiro, um paramédico, até um militar. Um senhor ou senhora da emel é apenas um revisor dos lugares concessionados.
Esta campanha parece-me um desejo absurdo de atenção, com uma promessa pouco credível, populista e garganeira (linguagem técnica refinada). Ofende todos os outros grupos profissionais que, realmente, contribuem para a manutenção da ordem e do bem estar nas nossas vidas. A emel fiscaliza e pouco mais. A sua função mais importante é existir e gerir, é um merceeiro de lugares pagos. Quem lhe deu a existência é que tem o mérito e a visão.
Ainda ontem, ao entrar num bairro histórico com entrada reservada a automóveis, vi a seguinte frase pintada nuns tapumes de obras: os moradores não gostam da emel.
Pudera, ninguém gosta.
E ainda gostaremos menos se nos tentarem atirar areia para os olhos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Ah sacanas

Quando os publicitários fazem coisas que eu adoro, como este anúncio que aqui vem, só me apetece chamar-lhes nomes. E isso quer dizer que fico chateada, feliz da vida, invejosa, encantada... Tal e qual como este anúncio, as palavras podem ser tanta coisa, tanta tanta. E eles aqui só revelam um bocadinho, mas uma pessoa prende-se pelas possibilidades.

No final não interessa nada qual é a marca ou o produto anunciado. Para mim, é a melhor publicidade, porque a ideia vai permanecer muito mais tempo assim. E a marca virá associada por arrasto.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

campanhas

Isto é chão que ainda vai dar muita uva, mas já há tanto por onde pegar que não posso ficar indiferente.
A campanha política de 2009 continua, agora na 2ª e 3ª fases (legislativas e autárquicas) e os cartazes não cessam de surpreender. Comecemos pelo partido anti-ideologia, o da senhora mal encarada, que se intitula social-democrata. Depois de um período de convocatória aos portugueses, eis que chegam os resultados: grandes tiradas desprovidas de sentido, como podemos constatar nos 4 (quatro!) cartazes que têm. Devem ter sido 4 (quatro!) portugueses que "não desistiram" e ligaram para a Dôtora.


"Olhem por quem mais precisa", "Prometam o que podem cumprir", e outras duas frases muito interessantes são o resultado dessa grande audição aos portugueses. Os senhores do marketing da política de verdade acharam que isto pode distrair as pessoas da falta de ideologia do partido, que também chama a atenção para a pessoa líder, que não tem muitos factores positivos a seu favor (e não estou a falar de atributos físicos). Assim, pode ser que os eleitores se sintam identificados com a mensagem (quem não se identificaria com tais lugares comuns vazios?).
Para atestar esta falta de ideologia, podemos ver esse grande cartaz da Juventude desse partido vazio de ideias, mas cheio de vontade. Está mesmo à entrada da Ponte 25 de Abril (aquela que deu polémica no tempo em que o PR era PM e esta senhora ministra da educação). Vejam como é bonito.


Que mensagem espectacular para contagiar a juventude para a acção cívica e política. 'Bora lá fazer coisas giras, pá, nestas coisas da política.
Enfim, é este o grande partido a par do outro.
Por falar em outro, que dizer daquela grande ideia publicitária que resultou muito mal? O homem, o nosso PM, no meio da bandeira portuguesa e estão pessoas à volta. Simbologia poderosa: ele está no centro de Portugal, no meio das pessoas, que o apoiam, que nele confiam. Bonito. O resultado ficou... hã... esquisito. É impressão minha ou as mulheres que estão à volta dele querem levá-lo consigo e fazerem-lhe festinhas? Há mais que admiração política naquele olhar... há uma espécie de veneração sexual.


Para não atacar só os grandes porque os pequeninos também têm direito, que dizer sobre os novos cartazes daquele partido de direita que, sempre que achamos que o portinhas vai sair, ele regressa com os dentes mais brancos? Poderá haver mensagem mais demagógica? "Acha normal os criminosos terem mais direitos que os polícias?" e outras frases do género, que envergonham como uma primeira página do 24 horas. Lamento não ter encontrado imagens para mostrar, mas estes ainda não estão muito actualizados cibernauticamente. De qualquer modo, encontrei esta fenomenal, que sublinha este espírito sofredor do pequeno partido, somos tão bons e temos ideias tão certas, por que não votam em nós? Não gostam da gente? Somos tão certinhos, com os nossos penteados e gravatas. Por que não gostam? Vejam lá se não parece uma avózinha querida.



Falta falar do PCP e do Bloco. Mas a verdade é que os cartazes do PC são sempre iguais. Aquilo precisa de um lifting tão grande como a estrutura - valha-nos o Jerónimo para manter a força. Quanto ao Bloco, queríamos ver a Joana Amaral Dias no cartaz, mas já está decidido que não entra na lista. Tirando isso, são com certeza os mais originais nos seus cartazes, fazem publicidade a fazer de política, tal como o PC, e não publicidade publicitária, como os 3 de que falei antes.
Seja como for, eu não aguento mais. Gostava de voltar a ver publicidade em outdoors. Já não aguento estas caras e estas frases e esta hipocrisia bem falante com um layout correcto.
No final de tudo isto, há uma coisa que me posso regozijar: a Laurinda Alves já ficou pelo caminho. Saber que não vou ver a cara dela numa escala gigante dá-me alguma tranquilidade. Não ter de ver as fuças do espírito agridoce do moralismo misericordioso, do assistencialismo castrador, da esperança das coisas arrumadas em etiquetas com flores, assemelhando-se a guetos com portas cheias de malmequeres e passarinhos.
Chegue Setembro depressa. E depois Outubro. Mais um bocadinho e estamos no Natal e eu posso pedir como presente o fim do comício impresso em larga escala.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

De facto, temos de nos perguntar...

Vi este anúncio e paralisei. Voltamos à publicidade incompreensível. Digo-vos: esta é mesmo absurda. Vejam-na, leiam-na e depois expliquem-me. A minha percepção vem já a seguir.



Primeiro de tudo o headline. Não sei o que me aconteceu ou ao anúncio, mas eu não li "Pergunte-nos", eu li "askus", pensando tornar-se de uma variação moderna para ascos, uma coisa que mete mesmo nojo. A imagem também ajudou a essa leitura obviamente. Aquele sujeito com ar duvidoso agarrado a dois animais parece mesmo um taradão por bichinhos e não um senhor honrado, lamento. Daí o asco fazer sentido. Lendo o body copy, percebemos que o touro e o urso são provavelmente as conjunturas do mercado, com as quais temos de viver lado a lado. Hã????
Depois disto tudo, uma pessoa não quer saber. São consultores, ya! Alguém podia fazer-lhes consultoria de publicidade e livrar-nos de coisa tão bizarra?!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Dói-me aqui

Existe uma marca farmacêutica que se chama HELP, o que em si mesmo já é um nome que me cativa. Não quer dizer outra coisa que não o que é: ajuda, socorro, etc. Ver isto, na minha área, é uma grande alegria. Não complica, não aspira a outra coisa, não dá uma volta de 180º para dizer o que quer. É aquilo e só aquilo. É óbvio que não resulta sempre, mas este caso parece-me bastante feliz.
Têm umas embalagens ainda menos complicadas, para tornar a sua comunicação absolutamente compreensível e eficaz.



Com uma mensagem directa sobre os sintomas, torna a aquisição ainda mais fácil e simples. Imagino que, sendo a Help uma marca norte-americana, a lógica de packaging utilizada é dirigida mesmo à prateleira, possibilitando ao consumidor adquirir pela sua própria mão o produto em causa.
É certo que isto levanta uma série de questões éticas, por se tratar de um produto médico, fazendo-nos questionar se algo que interfere com o nosso bem-estar físico deva estar assim à mão de semear.
Para mim, parece-me simples. Não tão simples como as embalagens, mas simples como os sintomas que pretende atacar. A diferença entre dizer analgésico, ansiolítico, anti-histamíco, anti-inflamatório e dizer contra as dores, contra a ansiedade, contra as alergias e contra as inflamações é toda. É democratizar a linguagem e não nos tornar todos médicos de bancada, que acham que dominam alguma coisa por dizer estes palavrões.
Todos estes medicamentos podem ser adquiridos numa farmácia sem sequer precisar do aval do farmacêutico. Basta dizer o nome. Assim parece-me mais fixe. Mesmo que uma pessoa não grite "Socorro, ajudem-me! dói-me a cabeça!" haverá uma embalagem a solidarizar-se com a nossa dor.
Agora só falta inventarem a marca "Água! Tenho sede!" para completar o quadro.

terça-feira, 21 de julho de 2009

problemas de expressão

No meu dia-a-dia profissional, insurjo-me muitas vezes com o argumento "as pessoas não vão perceber". Não procuro coisas nem conceitos rebuscados, mas por vezes gosto de brincar com as palavras e com as ideias. Num certo sentido, sinto-me insultada de cada vez que o argumento da "estupidez" é lançado, porque tento pensar o melhor das pessoas e afinal não me considero com uma inteligência tão acima da média.
No entanto, há publicidade que não percebo. E também consigo perceber que há publicidade que muita gente não percebe. Embora me custe admiti-lo.
Recentemente em conversa amena, cheguei mais uma vez a essa conclusão graças àquela publicidade estranha ao porco magro que diz "eu (coração) porco magro", que não só é idiota como eventualmente é imperceptível para grande parte da população. Em vez de ver um coração poderá ver "eu porco magro", o que é bizarro.

Este é só um exemplo tonto, mas a verdade é que temos a tendência para nos fecharmos no nosso mundinho de redoma (aqueles que têm a redoma) e projectarmos a nossa perspectiva para o resto da malta. De tal modo que corremos o risco de nos chocarmos quando vemos, num centro comercial, uma rapariga com ar perfeitamente normal a perguntar para o lado "como é que se escreve quase?". E quando isso acontece, como ontem a mim, perguntamo-nos duas coisas: 1) não há coisas bem mais chocantes na vida das pessoas? e 2) onde andei eu para isto me chocar?
E não há nenhuma resposta certa. Pelo menos que eu tenha encontrado entretanto. Ou seja, há coisas que são muito mais chocantes e terríveis do que lapsos linguísticos e cognitivos, mas por causa disso deverão ser tomados como irrelevantes? Mas, por outro lado, se me surpreendo com alguém com ar jovem e instruído não saber soletrar quase, corro o risco de perder a percepção daquilo que é a linguagem comum, entrando num instante no terreno da linguagem incompreensível.
Se alguém comentar "não percebi nada" talvez já tenha entrado.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Forçar a barra*

Já há que tempos que ando a olhar para a campanha de um cartão de crédito estrangeiro a tentar percebê-la. Apanha em expressões portuguesas que depois traduz em imagens. O conceito é giro. São expressões idiomáticas cujo duplo sentido pode dar azo às confusões que essas imagens apresentam.

Há o exemplo da bucha, que na expressão quer dizer sandes mas também aquele pedacinho de borracha que usamos para assegurar um bom trabalho de bricolage com os parafusos. Se formos ao dicionário, vimos que bucha é muito mais que isso, mas isso são outros 500 (olha, outra expressão sem preço). Há o exemplo do macaco, que é um animal mas que também é uma máquina de solevar grandes pesos. E ainda a história de dar corda à cebola, que confesso nunca tinha ouvido em toda a minha vida.



Está giro, ai que giro, embora com uma imagem duvidosa. Mas porquê? Por que raio estes senhores apresentam esta campanha? Ah, ok não tem preço, que é tipo uma assinatura da marca. Giro.

Mas a verdade é que eu olho para os outdoors, para os mupis, para a parafernália de coisas que eles têm espalhadas por aí e custa-me a perceber. Que eu saiba, estes senhores não são portugueses. Não há qualquer associação desta marca a uma ideia chanfrada de portugalidade.

Então leio isto e percebo (só para não me incomodar muito mais com este assunto). Faz parte de uma estratégia da marca de aproximação aos portugueses (e a outras culturas, porque noutros países fizeram o mesmo). É uma verdadeira estratégia de afirmação de posicionamento. Eu até acho bem. Lá está, é giro. Mas quem são estes senhores? Eles são caras anónimas e cinzentas que nos dão soluções de pagamento, crédito com juros será?, ou seja lá o que for. É só isso que são, uma mega gigante empresa que lucra com transacções. Apetece dizer "ei, amiguinhos, estamos em crise, sejam honestos, não há cá nós e não nos queiram falar ao coração, porque não cola".

Se calhar, simplesmente não percebi. Porque está giro.

*forçar a barra também é uma expressão idiomática do Brasil, acho. Não tem preço... principalmente porque ninguém cobra direitos. Se não, já estava a usar o meu cartão de crédito.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

entrar sem bater

A violência doméstica é uma das enfermidades graves que contaminam a nossa sociedade. Está presente na nossa cultura em surdina e, tantas vezes, em silêncio. Essa é uma das razões por que é tão difícil combaté-la. A prevenção e o combate à VD passa muito pela quebra do silêncio e pela coragem da denúncia.

O virar de cara, o fechar de olhos, a anuência silenciosa, são práticas comuns entre os "espectadores", que se escondem ainda numa mentalidade de "entre marido e mulher, não se mete a colher". Compromete-se assim o fim das situações de violência, como se o final coubesse apenas aos seus intervenientes, desresponsabilizando-nos do papel efectivo do conhecimento. Quem conhece, deve actuar. Saber e calar é pactuar com a perpetuação da violência, é ser cúmplice da agressão.

Nesse sentido, a campanha que a Amnistia Internacional Portugal lançou em casas-de-banho de bares é um verdadeiro gesto para inverter essa mentalidade. Compromete de forma directa o público, interagindo com ele de uma forma impactante e, diria, até brutal. Cliquem na imagem para ver melhor.




Colocar sangue nas mãos das pessoas é um envolvimento directo e claro naquilo que se pretende transmitir. Não há como contornar, como não reflectir. A campanha coloca-nos em cheque.

Cada vez mais, a interacção com o público não passa pelos meios comuns (anúncios TV, outdoors, mupis, imprensa, rádio). Para ser eficaz, a comunicação hoje vai directamente ter com o público, interagindo com ele de forma muito mais presente e incontornável. Seja a nível político-social ou meramente comercial, quando uma pessoa é abordada desta forma dificilmente se esquece, pois o impacto criado é intransponível.

Num nível totalmente diferente, de mensagem e de qualidade criativa, deixo-vos outra campanha que interage com o público nas casas-de-banho públicas.



segunda-feira, 15 de junho de 2009

As crianças a crescer

As crianças carregam consigo um mundo enorme, um universo em expansão, pleno e em superação. Um mundo que é só delas. Um mundo que representam para aqueles e aquelas que as amam. Um mundo outro, desconhecido e invisível, de possibilidades. Um mundo de amor e de frustrações.

Para além desses mundos ou a partir deles, nascem as imensas e diversas variações (cósmicas, muitas vezes) de consumo e de mercado. Umas são para agradar aos graúdos, outras aos pirralhos. Umas são de massas outras são de nicho, funcionando estas muito melhor para os adultos, que são facilmente seduzidos pela ideia da diferença. Claro está, porque as suas crianças são sempre especiais. E são mesmo.

E vem isto a propósito, não só do meu constante e profundo interesse naquilo que trata das crianças, mas também desta coisa maravilhosa e querida que me entrou pelos olhos adentro: um kit Fada dos dentes.




Esta personagem da Fada dos dentes é uma invenção com que qualquer um simpatiza. Colocar o dente de leite debaixo da almofada e receber, em troca, uma moeda ou uma prendinha representa a ideia de conquista que o crescimento acarreta. Não que ache que tudo precise ser recompensado. Mas, neste caso, trata-se de uma perda aparente que representa muito mais que isso. Que melhor forma de o ilustrar que a valorização daquele elemento perdido por uma fada? Um elemento que marca o fim da meninice e o começo de algo cada vez mais complexo e exigente.

Este Kit é, por isso, sobretudo para os adultos, que reencontram, nos seis, sete anos das suas crianças, uma variação do livro do bebé, onde podem registar estas pequenas grandes mudanças da queda dos dentes. É claro que podem agora fazê-lo com a cumplicidade e com a deteminação dos pequenos, o que torna o processo ainda mais fascinante. Eu fiquei com vontade de comprá-lo, aqui, mas já não vou a tempo.

Ao mesmo tempo que nós, adultos, somos presenteados com estes pequenos detalhes, exclusivistas, diferentes e especiais, vemo-nos confrontados com os fenómenos infantis de massa, que dificilmente conseguimos compreender. Um exemplo? Os gormitis, os bichos mais feios de que há memória. Mas há outros cuja adesão nos provoca completa estranheza, muitos mais.




Safam-se os que não têm tanto carácter sazonal (lego, playmobil, barbies, nenucos,...), apenas porque já passámos por eles.

Logo se compreende que estas modas permitem muitas outras coisas para o mundo das crianças. O desenvolvimento da sua própria esfera social, das suas relações entre pares, da cumplicidade e da partilha com os amigos. Não sabemos como começam os fenómenos, mas sabemos mais ou menos como acabam. São simplesmente abandonados, para uma nova entrega a outros códigos sociais, adequados ao crescimento.

Uma coisa é certa. A permeabilidade à oferta infantil não é exclusiva das crianças. Os adultos correm atrás dos bonecos da Pomar, dos livros com ilustrações do Bolila, dos kits de Fada dos dentes, dos brinquedos tradicionais, dos slings e da roupa personalizada.

No final, esperamos encontrar-nos todos em algo que nos divirta e que dê ao crescer essa inocência e ingenuidade sincera que permite a expansão destes universos únicos.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Gostam? mas gostam mesmo?

Há campanhas publicitárias que não se entende como é que foram criadas, aprovadas, finalmente produzidas e postas cá fora... umas porque são más, outras porque não se percebem ou são mesmo estúpidas. A campanha desenvolvida para novos hospitais de uma rede privada reúne tudo isso: está mal feita, não se percebe, é estúpida e socialmente irresponsável.






Mal feita

Que raio de imagem é aquela? A mulher parece que está a morrer ou que saiu de uma comunidade hippie dos anos 60, com uma dose extra de alucinogénios. "Nós gostamos de si"? Que é que isso me interessa? Se for ao hospital, quero que tratem de mim, da minha saúdinha. Não têm nada de gostar ou não gostar de mim.


Não se percebe

Pois claro que não se percebe. Quem é aquela pessoa a segurar naquela flor? São os doentinhos? É a enfermeira? É nossa senhora? E gostam de mim e então?


É estúpida

Ah pois é! Estão a gozar connosco? Que valores é suposto transmitirem com aquilo? Eu continuo a achar que flores e hippies não têm nada a ver com saúde... Gostam de mim e nem me conhecem de parte nenhuma.


Irresponsável

Esta coisa de dizerem "Nós gostamos de si" parece ser por oposição a "uns outros tantos que não gostam de mim". Pagando gostam de mim, não pagando, depende. Com aquela cabeleira, ar de agarrada e de florzinha na mão é provável que no Sistema Nacional de Saúde não gostem dela. Nem no SNS nem em lado nenhum. 


Em conclusão

Claramente a mulher é suicida e a mensagem da campanha é "mesmo que se queiram matar, desde que paguem, está tudo bem". Nós gostamos de si e não é por pagar, é porque gostamos de toda a gente, até de sujeitas estranhas, com ar de figura mitológica em fim de carreira. 

O que é que esta gente anda a pensar?

quarta-feira, 19 de março de 2008

Mupi ou outdoor?


Este é o primeiro post deste blog. É um post de apresentação e, logo a abrir, damos com a cara do Ewan McGregor... Hum, até a mim me parece estranho, mas ainda assim sei que tem uma razão de ser. 
No outro dia, numa conversa com duas amigas leigas*, uma delas mencionou o "outdoor" do ewan mcgregor. Eu disse-lhe que não era um "outdoor", mas um mupi (não se trata da imagem aqui ao lado - o mupi é um rectângulo vertical). Obviamente, ela não quis saber. Na verdade, queria apenas mencionar como estava "boazudo" na dita publicidade.

Afinal quem quer saber como se chama a uma porcaria de uma peça de publicidade? Que lhes interessa o mupi, o flyer, o outdoor, o stand-up, a orelha, o stopper... e por aí fora! Não interessa mesmo nada. 
Mas interessa o "boazudo" do ewan mcgregor. Ou seja interessa a imagem que passa, a ideia que transmite. Vamos levando, pelo menos nos meios urbanos, com centenas de imagens diárias. Estamos expostos, estamos contaminados. E não há como ignorar.

Eu decidi que ia deixar de estar em negação. Na verdade, não sou leiga, mas também não sou pró-capitalista (mas sim o contrário) nem uma croma das publicidades, das imagens e dos layouts. Mas na verdade sinto que é meu dever deixar de ignorar essa realidade imagética que nos cerca diariamente. 

Porque, de alguma maneira, sinto que quanto mais dominarmos a sua linguagem, mais seremos capazes de não sermos influenciados por ela, capazes até de a alterar.

Este blog pretende ser crítico a falar de tudo o que me entra pelos olhos adentro. Com algum cuidado de não levarmos tudo demasiado a sério, porque penso que isso seria bem perigoso e chato - nunca se deve levar nada disto demasiado a sério, mas apenas as suas implicações. 

Por agora, é apenas isto e, entretanto, vamos vendo o que acontece. 


* neste caso chamo leigo a quem não é um profissional desta área da comunicação.