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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Wireless e três cavalos

Portugal é exímio em situações caricatas, inusitadas, estranhas e pitorescas. É recorrente aquela sensação de que temos de olhar duas vezes, esfregar os olhos, arrebitá-los e conferir e voltar a conferir. É assim nas coisas boas e nas coisas más.
Mas nas boas, é mais giro. Reflecte-nos melhor, dá-nos um verdadeiro ar de graça, um carácter único insubstituível.
Dois exemplos.
Há um tascoso, bem tascoso, tão tascoso que eu até nem espreito com medo que o cheiro a fritos e a vinho tinto se impregne pelos olhos, aqui em Santos que tem a seguinte "comunicação":



Estes senhores têm visão. E demonstra que o wireless, assim como outras novas tecnologias, já não são tabu para os nossos comerciantes. No Verão, há caracóis. No inverno cozido. Wireless todo o ano. O meu conselho? Comer um cozido por €5, beber 3 Cergal por €2 e twittar "estou no tascoso a comer uma bela farinheira", entre o enchido e a couve.
O outro exemplo não está documentado, mas é igualmente inusitado, se não mais. No domingo passado, estavam 3 cavalos a pastar numa rotunda mesmo ao pé da Morais Soares. Três cavalos à solta, bem perto do tráfego, mastigando e fazendo a sua vida de lazeira. "Olha ali um cavalo" é o que costumamos dizer quando passamos de carro pelas nossas povoações. Por Lisboa, também.
Na verdade, tudo é possível nesta paisagem. Estamos no tempo do wireless nas tascas e dos cavalos nas rotundas. A nossa cidade é verdadeiramente múltipla, não por ser simplesmente cosmopolita (como outras capitais europeias), mas por manter algo da ruralidade das suas gentes.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

The macho is here

O Wall Street Institute já nos tem brindado com algumas campanhas publicitárias bastante interessantes, normalmente apimentadas com humor (esta ou esta são bons exemplos). Desta vez, foram buscar o Zezé Camarinha, o expoente máximo do nosso macho latino, o pintas do pintas, e satirizam sobre o seu inglês.
Supostamente apreciado pelas nossas turistas bifas, o Zezé parece-me o embaixador perfeito para ilustrar o "bem falante" de inglês.

Esta campanha é desconcertante. Colocar o Zezé encarnando-se a si mesmo, expondo os seus dotes de de galã e de inglês, é uma tirada arrojada e cada vez mais rara. O risco de fazer publicidade cómica, sem ser com os Gato Fedorento, é falhar o alvo, ser brejeiro, básico ou pouco feliz. Neste caso e a meu ver, o WSI ganhou a cartada. Dá-nos um espelho, ainda que deformado, de nós próprios e pisca um olho a todos os que gostam de aportuguesar a língua inglesa. Depois de Lauro Dérmio, tudo é possível e ficamos com mais um bom exemplo.
Com este nível de publicidade, dificilmente o WSI terá concorrência à altura no ensino de inglês para adultos. Coisas destas não passam despercebidas e constroem uma percepção forte de uma marca, para durar por algum tempo.

Numa palavra, this stuff cativates à brave.


sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

prendas de Natal V - Yeah!

Este não era um presente previsto na minha série, mas é graaaaaaaande! Pelo que cá vai.

Foi hoje aprovada a proposta do casamento entre pessoas do mesmo sexo!
É a nossa melhor prenda para o futuro. Mais livre, com mais igualdade e, caramba, mais feliz!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

prendas de Natal II - Rosa Maria

A cozinheira das cozinheiras não é um livro de receitas comum. É um livro tipo, diria até típico, com receitas e tabelas que interessam a quem gosta de cozinha. Mas mais importante, é um livro marcante a nível cultural e antropológico, porque se dirige às "donas de casa" e porque tem uma marca única de autoria, não culinária mas moral. Não é à toa que está à venda na loja A Vida Portuguesa. Não é apenas o design retro que está em causa, mas a mentalidade retro.
Adorei esta prenda, refira-se. Porque me dá boas receitas, ao mesmo tempo que me garante excelentes momentos de humor.
Segundo a Bertrand, a primeira edição é de de 1998, mas isso não faz qualquer sentido. Não pode fazer, porque não quero acreditar que há 12 anos ainda se escrevia assim, embora se pudesse ainda pensar. A edição que tenho neste momento é a 32ª, o que faz da obra um verdadeiro best-seller.
Rosa Maria, a nossa guia pela cozinha das cozinhas, abre o seu livro com um elucidativo prefácio, entitulado "Às senhoras que dirigem a vida do lar". Lemos atentamente.
"Minhas Senhoras:
Ao apresentar uma série de receitas da arte de cozinhar e de fazer doces, tive a preocupação de somente pôr neste livro receitas práticas, facilitando às donas de casa a direcção mais importante do 'ménage', a alimentação."
Assim se inicia, com o primor dos primores, a obra das obras, com a autora das autoras, enfim A cozinheira das cozinheiras.
Prontos para a ménage?
Rosa Maria é a mais bem intencionada das senhoras que se dirigem às senhoras do lar. Há uma preocupação e ternura pela alimentação da família, que comove os leitores, abrindo-lhes o apetite. Continuemos pela leitura. Quando fala da alimentação das pessoas adultas, Rosa Maria faz uma distinção fundamental da nossa sociedade, e que deve evidentemente reflectir-se na alimentação: o labor da cidade e o labor do campo. Pois, como nos explica, a vida da mulher da cidade é "menos laboriosa do que a da mulher que trabalha no campo" e "não lhe dá grandes perdas de forças" - logo, deve "adoptar um regímen mais vegetal". Mas, atenção, Rosa Maria não anda distraída e recomenda que não se abuse desse regímen (???) "de um modo tão irracional como se está vendo frequentemente, e que tem sido a origem de inúmeros casos de anemias e de outras enfermidades gravíssimas." A autora das autoras adora superlativos, é uma cozinheiríssima.
Atentos, ou melhor atentas (como boas senhoras do lar), prosseguimos e, mais à frente, descobrimos o verdadeiro inimigo de Rosa Maria: as Bebidas Brancas. É certo que já tinha embirrado com o vinho, dizendo "Do abuso do vinho têm resultado terríveis enfermidades, como o delirium tremens, a loucura, doenças do fígado, etc., e não menor número de desordens e desgraças de ordem moral, que têm levado muitos homens ao degredo, à penitenciária e ao patíbulo." A mulher tem toda a razão, mas atentem a linguagem - que beleza, quantos de nós usam a palavra patíbulo? Talvez seja porque não há por cá pena de morte, mas adiante. Nada disto se compara ao repúdio pelas bebidas brancas, pois que, no caso do vinho, uma pinga até faz bem "unicamente à hora das refeições". Neste caso terei de transcrever todo o trecho, porque é pungente.
"Se o vinho, bebido em condenável excesso, pode e tem produzido frutos desgraçados de ordem física e moral, as bebidas brancas, por seu turno, têm dado aos hospitais, aos cemitérios e às prisões um contingente horroroso.
A bebida branca, inimiga implacável da economia animal [o que raio quer ela dizer?], é, contudo, às vezes proveitosa: - no mar, por exemplo, ou depois de um aguaceiro em que o vestuário não pode ser imediatamente substituído; mas toda a bebida redundará em prejuízo, quando o uso que dela se fizer for imoderado.
Repetimos: a bebida branca é um veneno, que todos os homens de dignidade devem repelir, pois que o uso desmedido dela serve apenas para enriquecer os hospitais de doidos, os obituários e as prisões."
Depois disso quem se atreverá a beber uma gota mais de gin tónico? Eu teria medo, não fosse dar-se o caso de não gostar de bebidas brancas.
A cozinheira das cozinheiras é o presente dos presentes, o superlativo absoluto que une história das mentalidades à arte de bem comer. Uma boa mesa pode não fazer um bom lar, mas ajuda à boa vida.



quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

tremer é bom

A terra treme e, todos os especialistas são unânimes, isso é bom.
Esta madrugada, a terra tremeu, provocando um pequeno terramoto e, hoje durante o dia, deu-se o primeiro passo para o que vai ser um abanão na nossa terra. E esse é bom porque, tal como o primeiro, implica uma libertação de tensões.
Eu explico-me. Hoje foi aprovado em conselho de ministros a Proposta de Lei para a legalização dos casamentos homossexuais e, a partir daqui, falta pouco para tudo isto se tornar real: passa pela Assembleia, pelo PR (se não lhe der um amoque) e parece que em Abril do próximo ano poderá realizar-se o primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo. Sem discriminação, qualquer um de nós poderá realizar o seu casamento civil, constituindo assim uma união entre duas pessoas, perante o Estado.
É um grande passo, por muito que pareça tardio ou escasso. Mas é, efectivamente, um grande passo e, hoje, é tempo de celebrá-lo.
Ainda vivemos numa sociedade a múltiplas velocidades, com múltiplas facetas, recheada de nuances e de mentalidades díspares. Um passo em frente como este coincide com um passo atrás como o último do Bento XVI, em que decide proibir os casamentos entre católicos e não católicos.
Ao mesmo tempo, um tribunal em Portugal dá a custódia de uma criança a um homossexual, com a noção consciente que a guarda será exercida por um casal, assumindo publicamente que este tem melhores condições para cuidar da criança. Estes são os outros factos que são os mais importantes passos. Tão importantes como os legislativos, talvez até mais porque reflectem a um nível profundo a mudança real de mentalidades, que permite transformar realmente as coisas.
Ainda agora no café, um cliente e uma empregada brincavam com esta aprovação. Diziam coisas parvas, como "já não há homens a sério por isso é que tem de aprovar-se isto". A conversa era idiota, preconceituosa, até brejeira, mas houve uma nuance em que reparei e que me fez sorrir por dentro: usavam as palavras gay e lésbica. Não diziam paneleiro e fufa. Por muito ridículo que possa parecer, isto é mesmo uma coisa fenomenal. Esta nuance reflecte muito mais do que parece, reflecte que, mesmo no gozo idiota, há espaço para uma formulação não agressiva.
Portugal está mais do que preparado para isto. Essa história de não estar preparado sempre foi uma tolice. Pode tremer um pouco, mas nada vai cair. Antes se vão libertar tensões para construir novas coisas.
Hoje vou celebrar este passo, sabendo que ainda faltam outros passos para a realização efectiva desta medida. Vou celebrar o primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo que se realize nesta terra. Vou, a par disso tudo, lutar por mais direitos, nomeadamente na questão fundamental da adopção. Mas sei, e essa é a maior vitória de todas, que este caminho já está ganho, porque não há marcha-atrás. Haverá sempre mais para conquistar porque existe, em todos nós, o sonho de uma "cidade" e é para esse que devemos caminhar.
Hoje é uma vitória, abra-se o caminho.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Não tão lenta assim...

Pois que há coisa de um mês o meu carro foi assaltado. Usaram um método que gosto de chamar de abre-latas, que consiste em abrir a porta por cima, deixando uma abertura que pode ir dos 5 aos 15 cm. A minha abertura estava na ordem dos 20 cm, mas sabem como eu gosto de ser exagerada. Apesar do choque inicial de chegar ao carro e ver o meu carrinho violado, com CD espalhados pelo chão, o dano não foi grande. Aparentemente, os gatunos não têm o mesmo gosto musical que eu, mas gostam de mochilas de natação de miúdos de 8 anos, vai-se lá perceber. O meu seguro cobriu o dano. Para poder activá-lo, tive obviamente de me dirigir à Polícia e até não correu mal, tirando o facto do sistema informático estar com problemas e ter demorado por isso uma boa hora e meia no processo. Mas fiquei razoavelmente impressionada. Fui atendida por dois jovens e um deles até me falou de um caso de vandalismo a um veículo deles, quando foram atender um caso de Violência Doméstica. Pareciam estar do lado do bem no combate ao crime.

A dada altura, porém, depois de fazer o levantamento daquilo que tinha sido roubado (touca, chinelos, tanga e óculos numa mochila velha), o sôr agente perguntou-me se queria fazer uma queixa-crime. Não foi este o termo que ele utilizou, mas a pergunta consistia basicamente em querer saber se eu queria abrir um processo civil, dado o valor do roubo. Achei estranho, porque na verdade pensava que este tipo de crimes tinham de ser avaliados pelas forças da lei e não por mim. Disse que sim por descargo de consciência, mesmo não sabendo exactamente o que implicava, mas que percebo eu de leis e de quadros legais? Imaginei que eventualmente voltariam a chamar-me para depor, fazer um reconhecimento numa fila de suspeitos, eu sei lá, um ou dois episódios de uma série manhosa da Fox Crime.
É claro que eu sabia que era improvável, até porque, convenhamos, eles nem sequer viram o carro. O perito da Seguradora deve ser mais CSI que a nossa polícia. De qualquer modo, estava aberto o processo.
Há coisa de uma semana, recebi um postal (sim um postal) da PSP que dizia muito singelamente que o processo tinha sido arquivado. Assim, sem mais. Por falta de provas ou indícios para perpetuar a investigação. Pois. O papel que eu assinei deve ter entrado directamente nos processos para arquivar, é claro, e só por isso é que demorou 2 a 3 semanas a ser arquivado, pois teve de seguir os procedimentos.
Fiquei a pensar por que dizem que a Justiça é lenta em Portugal. Alguém quer mais rápido que isto? Abri o processo e eles rapidamente o fecharam. As Soon As Possible.
É verdade que: 1. eu pude fazer a queixa em qualquer esquadra (para quê informar a esquadra da zona que está a haver assaltos por ali?); 2. Nem me viram o carro (mas para quê se isso é coisa de peritos?); 3. Eu queria mesmo era o papel para a Seguradora (para quê utilizar os meios policiais para apanhar gatunos?).
Por mim, tudo bem. Não estava à espera que, sem qualquer investigação, se chegasse sequer a um suspeito. Mas soa estranho e é principalmente bizarro todo o processo. Talvez se me tivessem dito desde o início que era isto que ia acontecer (o que também cairia mal e provavelmente escreveria aqui mesmo sobre isso), talvez talvez eu pensasse no impacto ambiental da minha acção. Já que não ia ter impacto social, ao menos não se teria utilizado tanto papel.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

uma grande aventura

Este sábado, fui assistir ao espectáculo D. Afonso Henriques no Teatro Nacional D.Maria II. Esta revisitação ao repertório do Bando revelou-se um daqueles momentos de encontro perfeito de uma peça com o seu público. Reencenado vezes sem conta desde 1982, este espectáculo infanto-juvenil tem agora, na sua mais recente encenação, alguma da nata dos jovens actores "associados" ao Bando. Guilherme Noronha faz um espectacular Afonso Henriques, cómico e possante como só ele pode ser e todo o restante elenco (a minha Sara de Castro, Ana Brandão, Nicolas Brites e Miguel Jesus) contribui para uma festa de teatro, em que todos podemos entrar para passar um tempo de excelência e diversão.

Com inteligência, humor e um sentido apuradíssimo do que é um teatro envolvente e motivador para o público, João Brites consegue mais uma vez trazer-nos um espectáculo doce, violento, cómico, trágico, tudo num só trago, no formato mais feliz de todos: para crianças. Eu fui com duas e foi um fartote. A excitação foi tal que tivemos espadarias até à noite. Para maiores de seis, a partir daí é para todos, D. Afonso Henriques mistura a História "oficial" com memórias e relatos alternativos e com alguns perlimpimpins do improviso e gozo dos actores. Tudo com música, muita alegria e bravura.
A ver e a rever. Porque uma peça do Bando nunca termina de facto. Essa é uma das suas grandes virtudes.


terça-feira, 27 de outubro de 2009

Geografia do olhar e do sabor

Por muito que trilhemos Portugal, há sempre um ingrediente novo por descobrir. As terras estão sempre abertas a um novo olhar e a gastronomia disponível para um novo sabor. É assim que vejo Portugal de cada vez que o redescubro fora dos muros da minha cidade: saboreio-o.

Conforme a estação (o que neste momento não se aplica muito), as terras vão-nos dando novas cores, com uma luz diferente. Passear agora é um privilégio, porque as terras estão limpas de turistas, aparecem na sua frescura e na sua autenticidade (quando a têm, claro).
Este fim-de-semana, estive a passear e reencontrei lugares da minha infância e nada era bem igual. Porque, quando somos jovens e tolos, estamos interessados na geografia útil e, por outro lado, a das emoções e da memória. Não criamos empatias com a beleza, somos atraídos pela luz dos cromados e pela comodidade que a terra dá às nossas necessidades quotidianas. O sítio dos gelados, o cinema, as praias, os lugares onde brincamos e pouco mais. Redescobrir a beleza de um lugar conhecido na idade adulta é uma boa sensação.
Com a comida, é um pouco semelhante o processo. Aprendemos a gostar do que era intragável e a saborear cada um dos pratos das nossas terras. O cozido de Canal Caveira, por exemplo, era uma delícia para os adultos, mas eu ia sempre para o bitoque. Mas a riqueza fascinante da nossa comida acaba sempre por vencer e, na praia, passamos a preferir amêijoas em vez de hamburgueres.
Na nossa geografia natural, gastronómica e cultural, possuímos lugares únicos no mundo. Um dia apenas a contemplá-los pode trazer-nos o descanso e o deleite de umas férias completas.
Por isso, é bom voltar e descobrir esta notícia que nos anuncia que "Portugal surge em quarto lugar no ranking dos países com mais produtos agro-alimentares de excelência" no Qualigeo-Atlas. À nossa frente só Itália, França e Espanha, mas eles que se ponham a pau, porque não há comida como esta, como não há terra como esta.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

um novo cenário

Após esta noite eleitoral, desenha-se um cenário diferente para Portugal. Deixa-nos curiosos, expectantes e até esperançosos. Só não dá para estar mais devido à infeliz subida para 3ºlugar do nosso rapaz das feiras. De qualquer modo, é algo substancialmente diferente do que temos vivido nos últimos tempos e, até ver, a coisa promete.
Entretanto, os analistas políticos já fizeram as suas coligações virtuais, os prós e contras, e não vou maçar-vos com isso.
Ontem foi uma noite histórica por muitas razões. Para além das já anunciadas, resta sublinhar uma outra muito importante: Miguel Vale de Almeida foi eleito pelo PS como independente, tornando-se, do que sei, o primeiro gay assumido a ser eleito para a Assembleia da República. Não é um gay qualquer, é um activista e, pela qualidade da sua acção política e cívica, será com certeza uma grande aquisição para a equipa dos deputados.
Sobre isso, importa também falar das imagens mais formidáveis da noite eleitoral de ontem. Sem correr quaisquer riscos de favoritismo partidário (pois não votei PS), foi maravilhoso assistir à cartologia dos apoiantes do PS depois da vitória. Viam-se as habituais bandeiras do Partido, as de campanha e depois as do Arco-Íris, símbolo do movimento gay em todo o mundo. Foi a primeira vez que as vi num contexto partidário destes, numa noite de eleição, mostrando claramente como a defesa dos direitos dos homossexuais dá os seus frutos e como a luta e a visibilidade compensam.
Para um toque ainda mais saboroso para o partido vencedor, e para mim (porque me dá esperança neste novo PS que terá de governar), havia, entre os apoiantes, muitos negros, muita cor.
Foram as imagens da noite, porque permitiram-me a mim ver um Portugal mais plural, mais rico, mais progressista e isso já soube a vitória.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

a vida, uma viagem

Acordas um dia e decides que vais para o Cairo dançar dança do ventre. Parece um pouco despropositado, invulgar e talvez a tua família e amigos se juntassem para te travar e internar-te. Para Joana Martins, ou melhor Joana Saahirah, isso aconteceu mesmo, tornando-se uma das mais cotadas bailarinas de dança do ventre do Egipto.

O que acho mais espantoso nesta história é a coragem da decisão. Seres uma mulher portuguesa e decidires mudar completamente a vida, para realizar um sonho pouco previsível num país muçulmano. Não é um caminho simples, fácil ou que outras tenham traçado antes de ti.
Li um artigo sobre ela no i de Sábado (que infelizmente não consegui encontrar online) e fiquei impressionada pelo seu percurso. Estes percursos de vida, que fazem dela uma viagem, desafiando o convencional e o expectável, simplesmente atrevendo-se a seguir uma ideia louca.
Acho que há um paradoxo no português de ser pioneiro e conformado ao mesmo tempo. Vê-se grandes investidas, desenfreadas e arriscadas, e depois muito marasmo.
No final, há uma mulher portuguesa a fazer dança de ventre como poucas. E isso compensa.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Sobre bola e o resto

Hoje é o tal dia em que está tudo em jogo na qualificação para o Mundial de 2010. Já se fala disto há uns dias, semanas, meses e não é grande assunto para desenvolver. Ou ganhamos hoje e talvez haja ainda uma esperança e tal se os outros falharem, ou perdemos e então escusamos de preocupar-nos mais com isso, fica para a próxima.
Pelo caminho desta demanda infeliz da nossa selecção pós-Euro 2004, muita coisa aconteceu. Dissemos adeus ao Scolari, e depois daquela tentativa de murro ninguém se importou, dissemos "lá vem este" ao Queirós e, num instante, passou toda a febre das bandeiras à janela para uma indiferença envergonhada pós-indignada. A culpa é do Queirós e de outros que agora não interessa, ou talvez do Scolari e do Ronaldo e de mais outros que ninguém quer saber.
Pelo meio também, insurgiram-se vozes contra o advento de Liedson que, será que ninguém reparou?, apenas revelaram a muita xenofobia que para aí anda. A meu ver, uma selecção é a representação de um país. E o nosso país, felizmente, é multi-étnico, diverso e faz-se das pessoas que o compõem. Ser português é fazer por Portugal e escolher fazê-lo, pelo que imagino que haja muitos "estrangeiros" por aí, com a nacionalidade "pura" marcada no B.I., mas que de portugueses têm pouco. Daí só a haver uma resposta: o Liedson escolheu ser português, logo deve jogar na nossa selecção. E depois de marcar um golito, a xenofobia decresceu drasticamente. Se querem jogadores portugueses "puros" (seja lá o que isso for, afinal até o Ronaldo nasceu na Madeira), invistam na formação e sejam como o Sporting.
Adiante que esta conversa está a tornar-se demasiado tecnicista (outra palavra estranha da gíria futebolística).
A febre da selecção baixou drasticamente e só voltará eventualmente com um apuramento. Entretanto temos os clubes e os benfiquistas estão garantidos com a sua euforia, os portistas têm os títulos e os sportinguistas (como eu) têm o esforço, a dedicação, a devoção e o desânimo (em substituição da glória). A selecção já nem sequer tem um bigode, porque o nosso seleccionador snob cortou o dele há anos. Assim não vamos lá!
Alguma alegria dei eu aos vitorianos (Setúbal) quando, em terras estrangeiras para eles (Lisboa), apitei fervorosamente quando os ultrapassei na estrada. É preciso ver que eles levaram uma catrefada de golos dos eufóricos do Jesus. Solidariedade precisa-se e, além disso, o equipamento é verde.
Entretanto este post tornou-se algo bizarro, sendo a conclusão possível a seguinte: o futebol não está sexy (como se diz na gíria da comunicação), está antes chato e pouco épico como a gente gosta, está matemático e à rasquinha. A malta só aguenta isto por causa da cerveja.