sexta-feira, 13 de novembro de 2009

mais uma vez... nuestros hermanos

As Secretarias de Estado da Educação e da Juventude da Estremadura lançaram uma campanha para os jovens que inclui um curso de educação sexual bastante explicativo para jovens dos 14 aos 17 anos. Entre uma das temáticas mais importantes está a questão da masturbação. O nome "El placer en tus manos" diz tudo. Pode ler-se mais, aqui em português, aqui ou aqui.


Os pais católicos, os professores conservadores e a Igreja insurgem-se é claro. Isto agora de estar a ensinar sobre sexo colaborando para práticas masturbatórias e incluindo até o uso de objectos eróticos nas aulinhas é demais para aguentar. Imagino que devem estar a pensar: quando é que vão parar de atentar contra a moral? Quando nos deixarão em paz com as ignorâncias e silêncios dos nossos filhos? Deixá-los, pensarão os decisores bem mais progressistas, tão pouco assustados.
Dizem-se orgulhosos de estarem a fomentar a masturbação e, nessa clareza e objectividade, são absolutamente progressistas. Enquanto noutros tempos ou noutros locais se tentaria mascarar esse objectivo para não chocar, para não "fracturar", hoje em Espanha assume-se. Assume-se, entre muitas outras coisas, que a masturbação não é um acto sujo, perigoso, pecaminoso, mas sim um acto que propicia uma vida sexual mais completa, mais consciente e mais conhecedora. Assume-se que é um acto bom. Abordar a sexualidade desta forma global, tratando de afectos, "técnicas" e complicações de saúde, é uma forma nova e equilibrada de encarar este tema, tão intrínseco à condição humana.
O que acho mais extraordinário em Espanha é que estas pessoas não têm medo nem pudor em afirmar as suas convicções, mesmo aquelas com que não concordo. Nesse aspecto, é extremamente admirável.
Não ter medo. ou vencê-lo, é a maior das liberdades.
É bom pensarmos que também podemos ser assim. Um bom exemplo é dado hoje por Miguel Vale de Almeida, em entrevista.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

exemplar único

Hoje vai haver um leilão no CCB dos objectos de António Variações. Que eu me lembre, é das primeiras vezes que isto acontece em Portugal com um artista pop, mas independentemente disso é um momento simbólico. Com bases de licitação que vão desde os €10 (boquilhas) aos €1000 (cassetes com as maquetes das canções - as que foram usadas para o trabalho dos Humanos), parece ser tudo possível para os verdadeiros fãs de António Variações.
O que eu acho mais extraordinário em tudo isto é que este é o artista português com quem um leilão mais parece combinar. Toda a sua persona inspira coleccionismo de objectos e extravagância. Ao mesmo tempo, é o chamado artista póstumo, porque foi demasiado maldito, demasiado mal-amado, "à frente do seu tempo", como dizem. Portanto, o leilão é adequado, mas injusto e frustrante. Porque merecia mais justiça e mais sorte em vida, enquanto artista. De qualquer modo, é interessante e dá-nos essa sensação boa de partilha.
Ouçam aqui a reportagem da TSF, não só sobre o leilão mas também em Fiscal, terra onde está enterrado, tem nome de rua e um busto. Veja-se como se comenta a estranheza que inspirava noutros tempos, assim como a menção a ser "homem sexual", misturada com esse respeito pelos mortos e orgulho de ser da terra. O presidente da Junta queria fazer um museu mas não há dinheiro. Na verdade, Variações não poderia ficar reduzido ou preso a um só local.
Que a parada fique bem alta, é o que desejo.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

popota vs. leopoldina

Como se transformam duas mascotes desinteressantes e infantis em duas figuras de animação modernaças e poderosas? É melhor perguntar aos senhores da Sonae distribuição, porque eles parecem perceber do assunto.

Do lado do Modelo, temos uma Popota bomba, cruzando o flashdance com o tarantino, ao som dos Buraka. Do lado do Continente, a perua Leopoldina transformou-se numa versão animal da lara croft preparando-se para ajudar todas as crianças do mundo a invadirem um grande armazém de brinquedos.
De qualquer das formas, estas mascotes sofreram um upgrade brutal face a anos anteriores, colocando-se a anos luz do universo infantil do politicamente correcto. Popota e Leopoldina emanciparam-se, com vantagem, a meu ver, para a Popota, que tem uma auto-estima espectacular e está muito mais na dela. Vai dançando e conquistando as hostes. A Leopoldina por outro lado tornou-se uma espécie de perua mutante (ao estilo das tartarugas ninja), sem asas e com corpo de mulher, o que não está mal para o universo que estamos a falar, mas que não convence. Tem uma carinha demasiado inocente e brincalhona para se tornar uma verdadeira ninja no combate em prol das brincadeiras.
A Popota sai a ganhar, mas é uma evolução gigantesca para as duas mascotes!





Avisa-se que quem vai ao continente ou ao modelo comprar brinquedos, não há popota ou leopoldina que safe. Aquilo é mesmo a loucura e há que aguentar! Cerra os dentes que é Natal.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

todos e todas de pé

Existe a velha piada da criação em que Deus confrontou Adão e Eva com a seguinte proposta: (ler com voz divina) "Tenho duas aptidões especiais para distribuir por vocês, marcando assim o vosso sexo para toda a eternidade!" Adão e Eva aguardaram expectantes. Deus continuou: "Uma delas é o poder de mijar de pé...". Adão interrompeu-o logo, muito entusiasmado: "Eu quero essa, quero poder mijar de pé". Deus, sempre muito calmo e tolerante antes do surgimento das alterações climáticas, disse-lhe: "Mas, Adão, ainda não vos disse qual é a outra.". Adão não queria saber e insistiu ficar com essa habilidade extraordinária, antevendo já anos e anos de mijadelas para árvores, cantos e onde quer que lhe aprouvesse. Como a Eva não parecia muito preocupada com isso, Deus assentiu e deu a Adão o dito poder, para logo em seguida dizer: "Sendo assim, Eva, ficas tu com os orgasmos múltiplos".

Anedotas e mitos à parte, surge agora no mercado, trazido pelos americanos é claro, um novo produto que permite às Evas e às outras mijarem também de pé. Chama-se Go Girl e é um mecanismo (simples até) que permite a uma mulher fazer chichi sem ter de se preocupar em arranjar uma casa-de-banho. Supostamente muito prático e higiénico, o objecto é claramente mais um passo de emancipação. Mesmo que nos pareça supérfluo ou desnecessário, a verdade é que todo o conceito do produto assenta na ideia de autonomização da mulher. Com uma assinatura de produto que diz "Don't take life sitting down", que é algo como não leves a vida a sentar-te, este torna-se mais um veículo de empoderamento das mulheres. Tal como dizem, "You won’t be like a man. You’ll just pee like one.", ou seja, não haverá nada que não possas fazer como ele. Independentemente de querer ou não mijar de pé, poderei fazê-lo. O próprio nome é um sinal desse empoderamento.

Trata-se de um produto comercial e, nesse sentido, torna-se ainda mais fascinante, pois inevitavelmente sugere que o mercado está preparado para isto. As mulheres estão preparadas para isso. Já não aceitam simplesmente as "aptidões que Deus lhes deu" (mesmo que sejam muito boas) e vão à procura de novas, desafiando o que está convencionado e o que é "naturalmente" o seu limite.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

esse lugar mágico

Não foram bem coisas que me entraram pelos olhos adentro que me fizeram escrever este post. Nem sequer foram bem coisas. Foram mais sugestões do meio envolvente que me levaram para aqui, para o reconhecimento desse universo alternativo em que por vezes nos movemos.

Na verdade, isto não tem nada de esotérico ou de verdadeiramente místico, é mais uma assumpção desta coisa de sermos humanos, inteligentes e sensíveis de uma forma muito nossa.
Às vezes somos transportados para lugares que não são estes em que aparentemente estamos. É daquelas coisas que nos fazem realmente sermos o que somos. Temos uma habilidade (quase como quem sabe fazer malabarismo, sim) de nos afastarmos do nosso contexto real para nos projectarmos num outro lugar. Mais do que "simplesmente" pensar, refiro-me a esta constante "invenção", recriação e recreação de nós mesmos. Num simples acto automático, idealizamos o fim-de-semana, vemos as nossas crianças adultas, imaginamos a cara-metade no mesmo instante do outro lado do mundo. De uma forma simples, sem pensar, sem nenhum passo de mágica, tudo vem.

Mas aquilo que gosto mesmo é quando de repente partilhamos os lugares mágicos com a realidade. À semelhança do que acontece com os sonhos. Quando descobrimos segredos de nós próprios, da realidade, da história e dos outros, por nos transportarmos para outros lugares, sejam eles ficção, pensamentos, memórias ou sonhos.
Gostava de saber explicar melhor mas depois não teria tanta graça.


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Uma questão de género

Ontem, o programa Prós e Contras foi sobre a Gripe A. E, para destoar do que costumo ver, a primeira parte do programa foi razoável, sensata e calma (excepção feita aos amoques da senhora apresentadora que a malta já conhece). O resto não vi, não sei, mas, de um modo geral, pareceu-me bastante elucidativo.

Houve, no entanto, um momento daqueles únicos. Daqueles que ilustram o verdadeiro abismo que ainda existe entre a nossa e uma sociedade sem desequilíbrios inacreditáveis de género. O representante do Sindicato dos Enfermeiros estava a expor as dificuldades dos enfermeiros perante um cenário de gripe. Ora, um dos problemas é a falta de pessoal, que se agrava inevitavelmente num hipotético cenário pandémico. Primeiro, porque estão mais expostos à doença, podendo também adoecer, e segundo, porque têm de ir tomar conta dos filhos doentes. E porquê? Disse o senhor numa só frase: "porque esta ainda é uma profissão em que os profissionais são maioritariamente do sexo feminino". E seguiu em frente, atropelando o resto das palavras.
Ninguém reparou, o debate continuou. Ali ficava a ideia dominante de toda a sociedade: quando as crianças adoecem, são as mães que ficam com elas. É à mãe, à mulher, que compete esse papel. Se os enfermeiros fossem maioritariamente homens não haveria problema nenhum. Afinal, não é suposto os pais faltarem aos seus empregos para ficarem com os filhos doentes. Que disparate!
Podia repetir outra vez? Eu sei que o programa não é sobre questões de género, mas repita por favor. As mães é que ficam com os filhos doentes. Nem é preciso questionar, interrogarem-se porquê, é assim.
Não, não é. Não há nada na legislação que diga que são as mães, não há nada no bom senso que o diga - é apenas hábito, preconceito, estereótipo. Felizmente, há pais que faltam ao trabalho quando os seus filhos estão doentes e mães que vão trabalhar. Mesmo que a "sociedade" e o lugar comum nem sequer concebam esse cenário e que olhem de lado os "inovadores progressistas".
Os constantes aconchegos feitos, sem que ninguém se dê conta, a esta perpetuação do status quo da desigualdade de género têm de ser desmascarados, alguém tem de parar e dizer "desculpe, não entendi essa parte do seu raciocínio que supostamente era óbvia". Só assim se darão golpes visíveis a esta constante e enraizada desigualdade - a tal que "nem se nota".

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Diverte-te

A teoria é simples: a diversão muda o nosso comportamento, isto é, se algo nos diverte fazemo-lo com mais facilidade. Chama-se The fun theory e é uma iniciativa da Volkswagen.
Através de um conjunto de experiências, reúnem pequenas provas desta grande teoria. E, bem feitas como estão, é claro que só podiam resultar.
A iniciativa é mais que uma acção viral. Tem um concurso incluído (até 15 de Novembro, corram!) para ideias loucas e divertidas que ajudem a alterar comportamentos. E se forem delirantes ainda melhor.
A imaginação que esta equipa colocou nestes três exemplos que mostro em baixo podia ajudar-nos a salvar o mundo, parece-me. Com tempo e orçamento, nada como a diversão para pôr as pessoas a fazer o que é preciso. Haja alegria e boas ideias.
A Volkswagen, por outro lado, consegue notoriedade e aumenta a boa onda do consumidor em relação à marca. Admiro sempre o arrojo de certas iniciativas que, no final, se revelam absolutamente redondinhas, cativantes, fascinantes e, quem sabe, alteradoras de comportamentos. Uma grande ideia gera gozo e mais potencial criativo. E aquilo que acontece em Estocolmo passa a ter repercussões globais. Todos podemos partilhar enfim o fascínio pela brincadeira e pela simplicidade.