Quando os publicitários fazem coisas que eu adoro, como este anúncio que aqui vem, só me apetece chamar-lhes nomes. E isso quer dizer que fico chateada, feliz da vida, invejosa, encantada... Tal e qual como este anúncio, as palavras podem ser tanta coisa, tanta tanta. E eles aqui só revelam um bocadinho, mas uma pessoa prende-se pelas possibilidades.
No final não interessa nada qual é a marca ou o produto anunciado. Para mim, é a melhor publicidade, porque a ideia vai permanecer muito mais tempo assim. E a marca virá associada por arrasto.
A nação mais progressista é também a mais conservadora. Nos Estados Unidos da América, cabe lá tudo, um reaccionarismo bacoco e uma mentalidade muito mais à frente do que estaríamos dispostos a integrar aqui no nosso cantinho.
Mas, com eles, não há a velha desculpa das "questões fracturantes". Pode fracturar quem enfiar a carapuça, mas por lá faz-se o que é preciso para defender a sua posição ideológica, seja para o bem ou para o mal. Queremos acreditar nisso, agora que temos um Obama da Paz, personificação em si mesmo da união, da miscigenação, da integração, da não-discriminação, e a avaliar pela última notícia, parece que há boas razões para acreditar. A intenção de Obama em acabar com a discriminação dos gays no exército é uma excelente notícia, principalmente porque acaba com a política hipócrita do "don't ask, don't tell", que é como quem diz sê surdo e mudo o máximo tempo que conseguires e a gente deixa-te ir para a guerra. Toda a gente tem o direito a não perguntar e não dizer, mas essa não deve ser a política institucionalizada. Na verdade, penso que, às vezes, seria preferível que se perguntasse, acabando com a tirania do silêncio, imposta inconscientemente a tantos de nós, mas isso já é outra conversa.
Quem não tem papas na língua é a actriz norte-americana Cynthia Nixon (a Miranda do Sexo e a Cidade), que fez um discurso* excelente no National Equality March Rally, a marcha gay nacional dos EUA. A parte final, sobretudo, é uma grande defesa do direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, porque acentua uma problemática muito real desse paradigma ultra-conservador dos States: a discriminação sustentada pela recusa deste direito valida a constante perspectiva de que o diferente é menor e, como inferior que é, merece ser punido.
Vale a pena ver. E, para nós, portugueses, importa-nos ver como uma questão fracturante não é uma questão a evitar, pelo contrário, há que enfrentá-la para acabar com outro tipo de fracturas, bem mais danosas para todos.
Mais uma vez, Tarantino vem fazer das suas. Com muito sangue, crueldade, vingança e um humor fora do normal. Habituámo-nos a entrar no seu olhar cinematográfico que encena situações absolutamente inusitadas, muitas vezes absurdas, mas com um toque tão real e casual que temos de acreditar. Gangsters a discutir Madonna ou os nomes da McDonald's na Europa, assassinas mestres do kung-fu vestidas em fato-de-treino, miúdas giras e duplas a darem cabo de um serial killer, numa apoteose de violência incompreensível mas também absorvente, prendem-nos, fidelizam-nos e, a mim, deixam-me verdadeiramente banzada (este é mesmo o termo técnico). E tudo, sempre, mas sempre, regado com diálogos brilhantes. Diálogos reais e espirituosos, que me fazem babar de inveja pelo seu valor dramático despudorado, que fazem rir os espectadores, prendendo-os, suspendendo-os.
Os "Inglorious Basterds", desta vez, levam-nos ao martírio da suspensão, deixando-nos sem respirar e com o coração demasiado acelerado. Tudo é, mais uma vez, excessivo e carregado de momentos exasperantes, selvagens, cómicos e violentos. E no mais tenebroso dos cenários: a França nazi.
A violência, neste caso, é muito mais próxima, muito menos cómica, porque é reconhecível. Temos o imaginário cheio de histórias de nazis e, no fundo, odiamo-los tão profundamente que este filme nos enche as medidas também por isso. Tarantino oferece-nos um cenário "perfeito" de devastação nazi, com um fim excepcional, em que todos os grandes nazis morreriam à mão de si próprios e de uma judia. É delirante a fazê-lo, obviamente. Mas são sempre assim os filmes dele, um verdadeiro delírio que não é filmado como tal. É filmado contando-se de forma incrível a história.
Nesta demanda, Tarantino teve uma preciosidade, muito para além de Brad Pitt. O vilão Hans Landa (Chrishtoph Waltz) dá-nos os grandes momentos do filme, tornando-se inacreditavelmente o melhor do filme todo. As mulheres também voltam a cumprir o seu papel, mas não ocupam o mesmo lugar cimeiro que tiveram no Kill Bill ou no último Death Proof. Este bando de homens "sacanas sem lei" estão mais próximos dos Cães Danados. Seja como for, o brilhantismo volta a ser a marca de Tarantino, mesmo que, desta vez, ele ainda nos tenha massacrado nós. Mas, se não fosse assim, sem um bom massacre, não seria Tarantino.
Deixo-vos o trailler principal e um outro com o monólogo brilhante do nosso vilão copinho de leite.
Em tempos com o tempo estranho, não há como contornar a questão. Por aqui, a semana passada havia fogos, hoje (ontem) há mini-tufões. E não vale a pena fingir que é normal, que não tem nada a ver connosco.
Pessoalmente, gosto de poder estar na varanda, descalça, com um calor imenso e a chuva a cair a potes. É bonito, é poético, tem algo de reconfortante. Mas, na verdade, vendo a perspectiva global, é simplesmente aterrador.
As pessoas que ficaram com a casa "escangalhada" lá para os lados do Ferreira do Zézere acharam-no aterrador e não sabem bem quem ou o que amaldiçoar. Mas, perante outras catástrofes naturais que assolam este planeta, estes casos parecem pequenas anedotas.
E a gritante impotência perante tais cenários tem de ser substituída pela consciencialização que há algo que se pode fazer. Já, agora mesmo, em cada instante.
Como por exemplo? Reutilizar, reduzir, reciclar, como evidencia esta excelente campanha.
Muito se fala, estuda, analisa, comenta, idealiza, sistematiza, teoriza sobre o facto de haver casais que vivem juntos uma vida inteira. É claro que um certo cinismo, bem aplicado em determinados casos, pode apontar para factores externos oportunistas que levam casais a permanecer juntos. De qualquer modo, encontrando casos bem sucedidos, o enigma pode instalar-se, levando equipas a formar opiniões científicas de todos os ramos para sustentar teorias. Na verdade, isso pouco interessa, porque até hoje ninguém se tinha lembrado desta. É tudo uma questão da cola que se usa, como podemos constatar neste anúncio (se clicarem na imagem podem ler o copy: long lasting glue - cola com efeito prolongado).
Uma boa cola com efeito duradouro, como esta, pode fazer milagres. Esta campanha, com o sentido de humor bem apurado, levanta o véu desta questão, revelando essa ponta de cinismo que a nossa sociedade tão bem alimenta.
Mas o que gosto mais desta ideia é mesmo essa possibilidade de encontrarmos a cola certa. E aqui cola quer dizer tudo aquilo que colocamos entre nós que nos aproxima. Tudo aquilo que faz do dia-a-dia um motivo de proximidade, intimidade e cumplicidade. Não é à toa, parece-me, que todas estas palavras terminam com idade, como se a vida nos desse tempo para a absorvermos bem, para crescermos e enriquecermos com aquilo que ela nos dá.
Às vezes, não precisamos de pensar no efeito prolongado da "cola", podemos simplesmente aplicá-la e ver quão boa ela é, aproveitando a sua capacidade de nos fazer permanecer em contacto (muito próximo) com prazer.
Há anúncios que têm este condão de despertar reflexões, mesmo quando são tolos, cómicos e um pouco idiotas. Ou então é só dos olhos. De qualquer modo, sabe bem colar.
Em tempos de Autárquicas, uma pessoa põe-se a pensar naquilo que deseja para a sua cidade, naquilo que falta, naquilo que está bem e mal, naquilo que a pode tornar melhor. No meio desta eventual reflexão, depara-se ou não com uma evidência: a minha cidade é linda.
Lisboa é uma cidade linda. E talvez esta conclusão não tenha vindo das autárquicas (afinal, não preciso pensar muito relativamente a isso), mas sim desta oportunidade, que de vez em quando a cidade me dá, de achá-la absolutamente encantadora. Nem sempre nos concede isso, com os seus pequenos e grandes defeitos a espreitarem-nos os dias, mas quando o faz é impossível não nos atirarmos a ela com cânticos de amor e adoração.
Deparei-me com uma vista de telhados e Tejo... tudo imenso. E lá me fui lembrando de outras vistas bem presentes na minha vida toda, que nos arrancavam do lugar mesmo sendo banais. Talvez por que soubéssemos que não estariam lá sempre.
E, dessa vista, passei para a vida, para a permanente epopeia que Lisboa desenha. E, ao fim de quase dois meses, voltei a reconciliar-me com a minha cidade, deixando esse meu lado africano das paisagens imensas das férias descansar um pouco.
Assim nos vamos desenhando, com esta coisa que os espaços nos dão. Contornos, cheiros, possibilidades, sonhos e reencontros.
A cidade prepara-se agora para receber um novo inquilino* e fá-lo brilhante de orgulho, sempre bela, desejando o melhor.
As campanhas de sensibilização sobre as alterações climáticas necessitam combater, em primeiro lugar, as resistências do público, que cede quase sempre à sensação de impotência e frustração, anulando assim qualquer movimento ou acção. O público vê-se confinado a espectador, incapaz de fazer seja o que for para resolver. A verdade, segundo nos dizem, é que pequenas alterações nos nossos gestos quotidianos, multiplicados à escala global, podem fazer uma grande diferença.
Se pensarmos em questões sociais de uma forma global, a resistência está também lá. Ao depararmo-nos com problemas gigantescos, a tendência é assustarmo-nos, encolhermos os ombros, chorarmos, paralisarmos. Porque não sabemos qual é a solução e não temos a mínima ideia do que podemos fazer. Por isso, os donativos são uma benção para a maioria do público bem intencionado. Campanhas como a do Banco Alimentar contra a fome, nos supermercados, são um sucesso, porque as pessoas compreendem o gesto, materializam a sua ajuda e valorizam-na por isso.
Este é o desafio de toda a comunicação "solidária": levar as pessoas a entender o seu papel, a valorizá-lo, porque a maior parte das vezes é intangível, imaterializável e não quantificável. Ficamo-nos na abstracção.
E essa é, a meu ver, a única saída. Ou seja, individualmente sermos capazes de agir com a noção do global. Tornar a nossa acção concreta numa acção universal. Não é muito diferente de um ensinamento cristão, mas a diferença reside sobretudo no tipo de acções de que estou a falar. Não se trata de moral, nem sequer de ética, mas capacidade de reflectir sobre o impacto daquilo que fazemos numa escala nunca antes vista.
Este filme mostra-nos um pouco essa ideia de causalidade, numa excelente animação.
Ana Vicente nasceu em Lisboa em 1977. É licenciada em Filosofia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Dramaturga desde 1997, é autora do texto do espetáculo “Rua de Dentro”, pelo Teatro O Bando, nomeado para “Melhor Texto Português representado” dos Prémios Autores de 2011 da Sociedade Portuguesa de Autores.
Colaborou com diversos criadores e grupos de Teatro, entre os quais Gustavo Vicente, Miguel Moreira e Susana Vidal.
É autora do livro Eubarratubarramim, editado em 2003 pela Ponta, Associação Cultural com o apoio do IPLB, sendo a sua primeira obra de ficção publicada.
Escreveu o conto Erropção para o primeiro número da Revista Base, em 2005.
in_temporal_2012 é a sua primeira publicação online.