quinta-feira, 10 de setembro de 2009

os verdadeiros latinos

Há boas notícias que são uma tal surpresa que até ficamos atónitos. E depois espantados por serem notícias de outras paragens e não daqui ou de um qualquer país nórdico, evoluído e tal. Logo a seguir, sentimo-nos envergonhados por não estarmos lá.
O Uruguai aprovou a adopção por casais homossexuais, tornando-se o primeiro país da América Latina a fazê-lo. Para mim, até agora, o Uruguai era apenas mais um daqueles países da América do Sul, com uma bandeira parecida com a da Argentina. Agora é um país pioneiro. E imagino como será de facto. Para ir contra a Igreja Católica e uns quantos psicólogos de determinada linha, não pode ser só mais um país. Precisou de uma classe política suficientemente esclarecida, progressista e corajosa para ter a ideia e depois fazê-la andar.
É uma boa notícia para o país, para o continente americano, para os latinos e, no fundo, para todos nós. Pelos 30 segundos de notícia, até nos faz bem a nós, revigorados e esperançados.


quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Sobre bola e o resto

Hoje é o tal dia em que está tudo em jogo na qualificação para o Mundial de 2010. Já se fala disto há uns dias, semanas, meses e não é grande assunto para desenvolver. Ou ganhamos hoje e talvez haja ainda uma esperança e tal se os outros falharem, ou perdemos e então escusamos de preocupar-nos mais com isso, fica para a próxima.
Pelo caminho desta demanda infeliz da nossa selecção pós-Euro 2004, muita coisa aconteceu. Dissemos adeus ao Scolari, e depois daquela tentativa de murro ninguém se importou, dissemos "lá vem este" ao Queirós e, num instante, passou toda a febre das bandeiras à janela para uma indiferença envergonhada pós-indignada. A culpa é do Queirós e de outros que agora não interessa, ou talvez do Scolari e do Ronaldo e de mais outros que ninguém quer saber.
Pelo meio também, insurgiram-se vozes contra o advento de Liedson que, será que ninguém reparou?, apenas revelaram a muita xenofobia que para aí anda. A meu ver, uma selecção é a representação de um país. E o nosso país, felizmente, é multi-étnico, diverso e faz-se das pessoas que o compõem. Ser português é fazer por Portugal e escolher fazê-lo, pelo que imagino que haja muitos "estrangeiros" por aí, com a nacionalidade "pura" marcada no B.I., mas que de portugueses têm pouco. Daí só a haver uma resposta: o Liedson escolheu ser português, logo deve jogar na nossa selecção. E depois de marcar um golito, a xenofobia decresceu drasticamente. Se querem jogadores portugueses "puros" (seja lá o que isso for, afinal até o Ronaldo nasceu na Madeira), invistam na formação e sejam como o Sporting.
Adiante que esta conversa está a tornar-se demasiado tecnicista (outra palavra estranha da gíria futebolística).
A febre da selecção baixou drasticamente e só voltará eventualmente com um apuramento. Entretanto temos os clubes e os benfiquistas estão garantidos com a sua euforia, os portistas têm os títulos e os sportinguistas (como eu) têm o esforço, a dedicação, a devoção e o desânimo (em substituição da glória). A selecção já nem sequer tem um bigode, porque o nosso seleccionador snob cortou o dele há anos. Assim não vamos lá!
Alguma alegria dei eu aos vitorianos (Setúbal) quando, em terras estrangeiras para eles (Lisboa), apitei fervorosamente quando os ultrapassei na estrada. É preciso ver que eles levaram uma catrefada de golos dos eufóricos do Jesus. Solidariedade precisa-se e, além disso, o equipamento é verde.
Entretanto este post tornou-se algo bizarro, sendo a conclusão possível a seguinte: o futebol não está sexy (como se diz na gíria da comunicação), está antes chato e pouco épico como a gente gosta, está matemático e à rasquinha. A malta só aguenta isto por causa da cerveja.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

boa casta

A Casa Ermelinda de Freitas* pode regozijar: o primeiro mosto a sair das vindimas de Palmela tem 14,7º de teor alcoólico.
Esta frase talvez não faça sentido nenhum, mas saca a rolha da conversa que me interessa. Ontem, passei pelas Festas das Vindimas, em Palmela, e assisti à "saída" do primeiro mosto. Deu direito a benção e tudo dos padres da paróquia.
No momento em que o sumo da uva vai deixar de sê-lo, iniciando assim o processo de fermentação para o vinho, dá-se este acto simbólico de benção, com a reunião da população em torno de um produto tão profícuo para o nosso povo, tanto em termos económicos como sócio-culturais. Uma festa que recria uma tradição popular, ampliando a sua dimensão e enfatizando ainda mais o simbolismo do momento.
Na verdade, não percebo muito do assunto. Apanhei tudo meio de esguelha, mas consegui perceber este essencial (14,7º de teor alcoólico) e ainda comi umas uvas doces e saborosas.

Mas foi o simbolismo do acto que mais me impressionou, esse desejo de um bom ano de vinho, como se antevendo e prolongando a esperança de muitos bons momentos a apreciar um copo de vinho em boa companhia. Este foi o cenário de benção que imaginei, neste olhar de relance que tive, em que todos os olhares, desejos e energias entraram em comunhão naquele momento para criar um bom vinho.

* A menção à Casa Ermelinda de Freitas é pessoal. É uma das minhas Casas preferidas pelos vinhos que já tive o prazer de beber, pelo seu Syrah 2005 (melhor vinho tinto do mundo) e pela tradição de mulheres proprietárias. Mas, no fundo, o vinho das Terras de Sado tem estado cada vez melhor e tem sido um verdadeiro prazer descobri-lo.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

menina, estás à janela

Ontem à noite, passei por uma serenata. Assim mesmo, ia de carro e no meio da rua estava uma tuna a cantar e a tocar uma canção de amor. À janela, estava a moça, com ar inebriado, satisfeito e, claro, meio embaraçada.
Nunca tinha assistido a nenhuma e achei realmente encantador, devo confessar. Tenho alguma aversão a tunas e à tradição académica, mas adoro expressões públicas e exageradas de amor. E, talvez por isso, não me tenha incomodado nada ver a tuna (como normalmente costuma acontecer), pelo contrário gostei de os ver e ouvir.
Isto de expressões públicas e exageradas de amor tem uma carga social muito ambígua. Há um constrangimento social que impele para o embaraço e contenção dessas expressões, mas há, parece-me, um comprazimento e desejo, por vezes inconfessados, de as vivenciar, de as receber e de as realizar.
Esta ambiguidade garantiu o talento e sucesso da campanha do Cornetto da Olá, desmascarando um pouco a sobranceria e altivez hipócritas dos cínicos do amor. O ser ridículo faz parte do amor. E não é preciso nenhum esforço.


quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Frescura


Um dos prazeres de trabalhar em Santos é poder ir, à hora de almoço, ao Mercado da Ribeira. A maior parte das bancas já estão fechadas mas, ainda assim, consigo encontrar duas ou três de frutas e legumes e é um verdadeiro prazer.

Os frutos e legumes dos mercados são belos, cheirosos e desformatados. Estão a anos-luz dos frescos dos super e hipermercados, não só em termos de sabor, origem e contexto, mas principalmente por uma questão de alma. Os alhos, pêssegos, pimentos, courgettes e tomates que comprei hoje vieram de algum sítio com terra. Não cresceram numa embalagem com celofane nem apareceram directamente nas prateleiras. Têm sabor porque têm história.
O Mercado da Ribeira tem uma dimensão e um ambiente (principalmente no auge do seu funcionamento, quando está cheio e com todas as bancas a funcionar) que enriquecem ainda mais essa história. Assim vazio, a imponência é menor, mas provoca igualmente a sensação de privilégio e de espaço público, comunitário e alfacinha.
A dimensão de qualquer mercado é universal e intemporal. Comprar num mercado dá um prazer que nos aproxima mais da humanidade, é um acto quente e pessoal, em vez de frio e indiferenciado.
E o prazer da frescura dos alimentos é insubstituível. Na cidade, no campo, no grande Mercado da Ribeira em Lisboa, ou no pequeno mercado de Vila do Bispo, ficamos com produtos melhores quando voltamos para casa.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

hit by bus? faz um festival para celebrá-lo

Ao voltar à cidade, deparei-me com um cartaz a anunciar o BFF - Bicycle Film Festival. Fiquei confusa e reflecti sobre o que poderia ser um festival de cinema de bicicletas. Uma espécie de drive-in com biclas? Só filmes em que apareçam bicicletas? Filmes de provas de BTT?
Normalmente só me deixo ficar pelas divagações quando o resultado é interessante. E desta vez os devaneios não eram suficientemente desafiantes. Por isso, fui investigar. Fiquei a saber que o BFF já existe desde 2001, ano em que o seu fundador e mentor foi atropelado, em Nova Iorque, enquanto passeava de bicicleta. Em vez de ficar traumatizado, decidiu criar um festival para celebrar todas as expressões artísticas e performáticas que envolvam bicicletas.
O festival acontece em várias cidades e agora chegou a vez de Lisboa. O programa pode ser consultado aqui.
Mesmo com as explicações não sei bem o que esperar. Mas de qualquer modo fiquei intrigada e com vontade de espreitar. E, quem sabe, pedalar.


terça-feira, 1 de setembro de 2009

à volta

Estar em Lisboa, já fora de férias, não significa estar de volta.
Estar de volta, desta vez, vai demorar. E não me importa muito que a adaptação chegue tarde. Estou ainda como o lugar que deixei, rude e selvagem. Mas sem a beleza e a liberdade que por lá deixei.
Há lugares que nos envolvem. Porque são cheiro e som diferentes, porque tudo à volta pousa nos olhos sem entrar por eles adentro. Porque o tempo se torna diferente, sem caprichos nem pressões. Voltei meio africana, sem sair deste país, meio selvagem mas imersa em comunidade. Fiquei assim sem me dar conta. E agora não me rala a sobranceria nem a altivez de Lisboa. Não me rala a sua beleza e a sua atracção. Sei que vão chegar e então estarei de volta. Mas, por enquanto, não lamento não estar cá.
Lamento não estar lá. Mergulhar em águas sereias. Levar com a brisa a cheirar a esteva. Ter o corpo coberto de sal e sol. Ser elevada por paisagens agrestes. Guardar restos de comida para os animais. Andar despida. Entrar no lugar e permanecer na paisagem. Tornar-me parte dela, ser o lugar simplesmente.
É um privilégio viver assim por 15 dias. Sem perfeição nem ilusão. Com muito menos camadas. Partir é abdicar desse privilégio. É voltar a outros privilégios que, por alguns momentos, ficarão sem sabor.
A terra é tão saborosa e gostosa, que é impossível que tudo o resto, mesmo sofisticado e galante, não pareça sensaborão por uns tempos.

Para entreter-vos deixo aqui a 2ªparte de um documentário sobre a Mayra Andrade. É curtinho (10 minutos esta parte) e vale a pena. Podem ver a 1ª parte aqui. Esta foi a banda sonora dos 15 dias. E nunca cansou. Ainda não consegui deixar de ouvir. Tem a mesma rudeza e beleza que encontrei. Tem a mesma cadência e é um encontro semelhante de gentes e ritmos.