quinta-feira, 9 de julho de 2009

Mão na boca e areia para os olhos

Só no dia de ontem recebi 4 emails sobre a Gripe A/H1N1/mexicana/suína. Tudo conselhos úteis e relevantes. Todos os dias se ouvem os casos a crescer. A ideia de pandemia cresce, assim como a ideia contra-corrente de que é tudo um esquema mediático das farmacêuticas. Não vou entrar por aí, até porque iria, com certeza, repetir argumentos e chover no molhado sobre um assunto que já está encharcado. A melhor política, parece-me, continua a ser "Eu não acredito em bruxas, mas que as há, há!".

Queria sobretudo falar da relação (muitas vezes inversamente proporcional) entre aquilo que acontece e a percepção do comum dos mortais. Tudo isto a propósito desta imagem.



Reparei nela ontem e achei encantador que se tivesse feito o bonequinho do bicho. Podemos ver a composição genética da gripe: olha aqui está um gene da gripe humana, aqui 2 da saudosa gripe das aves e os porcos, sacanas que vieram dar cabo disto.
Neste cenário, a mim ocorre-me dizer que todos, sentindo-nos impotentes e surpreendidos, precisamos de respostas. Perante uma gripe aparentemente estranha ou outra doença que nos aflige de repente e nos desampara, nós queremos saber porquê e queremos caminhos para seguir.
Este desenho, incompreensível, inofensivo e indiferente, significa a meu ver isso mesmo: um desejo qualquer de materialização do que nos escapa. Como se a gripe tivesse uma cara e, de repente, pudéssemos ver bolas gigantes de Gripe a aproximar-se ou, qual MacGyver, pudéssemos escolher o fio certo a cortar. Lamento, mas nunca acontece.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Os tais novos canais

Ele é twitter, ele é facebook, ele é xiribitatatá... o mundo da internet, com as suas redes sociais, canais de divulgação, plataformas, e urras urras, não pára de evoluir. De tal modo, que já me disseram no outro dia que os blogs estavam desactualizados.
É certo que eu já ando nisto dos blogs desde 2004. Vistas as coisas assim, estou para aqui a escrever posts, ainda que com um ano ou dois de interregno, há quase cinco anos. Em meia década muita coisa acontece - basta olhar para as crianças.
Eu abraço as novas tecnologias de bom grado, mas há plataformas (vamos simplificar) que eu não entendo, ou que pelo menos não consigo acompanhar. Bem sei que, graças à minha profissão, tenho o privilégio e a obrigação de estar sempre ligada, mas neste mundo virtual que a Internet criou há muitas coisas que me escapam. E que quero que continuem assim, enquanto puder.
Habituei-me a ver certos instrumentos da Internet como meios alternativos de contextos comuns não virtuais. Por exemplo, o messenger é um alter-ego distorcido de uma conversa (em modo pior), um blog é uma publicação pública em formato digital, um email é uma carta, um fax, uma circular... Com as devidas distâncias, estes meios partem de algo muito comum na vida social diária para se deslocarem para outra coisa. Mas agora as plataformas estão a criar novas formas de vida social. Estão a liderá-las. Os sms são algo por si só, o twitter também, o Facebook eu sei lá.
Não há nada de mal nisso. Pelo contrário, faz parte da evolução das coisas.
Mas às vezes apetece desligar. E a propósito disso encontrei uma publicidade brilhante. Que me faz pensar que não me importa nada estar desactualizada num certo sentido, se imaginarmos que há livros há centenas de anos.



segunda-feira, 6 de julho de 2009

Desfilemos

Ontem estive no FIG - Festival Internacional de Gigantes, no Pinhal Novo. O festival já vai na 7ª edição e junta a tradição popular dos cabeçudos com o lado mais performativo do espectáculo de rua. Não tive oportunidade de assistir a nenhum espectáculo, mas sim o privilégio de ver o desfile. Em grande festa, com os grupos todos representados, o público pode assistir ao desfile de máscaras e gigantes. Com a presença de vários grupos de percussão, a marcha foi mesmo uma completa animação.

A possibilidade de assistir e/ou integrar um desfile é uma experiência de contaminação. É trazer mesmo a alegria para a rua, a capacidade de nos mostrarmos/olharmos para os outros. E fazer uma grande festa pública.

A pensar nisso, lembrei-me de um outro desfile, a Peregrinação da Expo 98. Já passaram mais de 10 anos, mas a verdade é que muitas daquelas máquinas de cena continuam presentes na nossa memória, ou pelo menos aquela sensação tremenda de estar a ver passar uma das paradas mais espectaculares a que poderíamos assistir. Todos os dias durante a Expo 98, o desfile acontecia, trazendo um imaginário único, cheio de universos alternativos, capaz de cativar todos os públicos, todas as idades.


É esse lado do desfile, transversal, universal e agregador, que me atrai. Seja num acto artístico, seja num acto político, seja num acto popular. Neste acto colectivo de partilha, há lugar para a procissão e para a Marcha do Orgulho.

Um desfile eleva. Tem um objectivo utópico na sua marcha, que se vê na cadência dos que desfilam e na persistência dos que assistem. Um desfile revela-se nas suas passadas. Cresce quando se cumpre o seu caminho, levando consigo mais e mais gente, espalhando beleza, ideias, alegria e festa.

Dá gosto sair à rua.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O que dizemos e o que eles fazem

Qualquer progenitor, e afim, sabe que uma coisa é aquilo que dizemos, mandamos, pedimos, outra totalmente diferente é aquilo que eles fazem. Não porque façam sempre diferente, mas simplesmente porque há um espaço enorme, vasto, amplo entre o nosso "ideal" e a realidade deles. O acto é sempre autónomo, mesmo quando eles são pequeninos, mesmo quando são obedientes. Há sempre uma margem intransponível da incógnita.

Por isso, é que são fantásticos, extraordinários e, tantas outras vezes, exasperantes.

Esta pequena reflexão, pequeníssima, sobre o mundo das crianças que só elas podem dominar, vem a propósito desta campanha de um plano de saúde infantil. Com uma abordagem muito simples, bem humorada, e visualmente muito imediata, a campanha transporta-nos para esse mundo do que nós dizemos e aquilo que eles fazem. Para colocar-nos obviamente no terreno movediço da dúvida, do medo, da insegurança.

Porque sabemos que é mesmo assim, esta campanha funciona. Eles vão sempre fazer qualquer coisa perigosa, excessiva e imprevisível. Porque são livres num sentido muito próprio, são desprovidos da constante auto-censura. Nesse sentido, são brilhantes e inventivos. Nesse sentido, são um potencial perigo.




quinta-feira, 2 de julho de 2009

Bons momentos




Ontem vi a versão portuguesa deste anúncio do papel higiénico Colhogar e achei brilhante. Não estava minimamente à espera de nada do que se passa ali e fartei-me de rir.
Acho que tudo o que se passa numa casa de banho com papel higiénico tem potencial cómico. É o nosso lado mais infantil a rir-se da palavra "cocó" e dos puns dos outros.
Mas à parte disso, o que gosto mesmo é dessa ideia de que há um momento de fantasia e catarse individuais durante o tempo de sanita. Pensar naquele momento universal como um refúgio do indivíduo é algo cómico e generoso. É reconhecer em cada um de nós uma fracção exclusiva, única e que não é para partilhar. Mesmo que seja no cocó.
É generoso no sentido em que se reconhece no outro também esse espaço e essa "poesia". Ainda no passado fim-de-semana, pude testemunhar dois casais a discutirem a questão "tempo de lazer na sanita".
Seja com leituras rápidas (ou não...), seja sudoku ou palavras cruzadas, seja brincadeiras com o papel higiénico, seja simplesmente 3 minutos de puro silêncio (ou quase) e isolamento, é um momento que deve ser bom para quem nele está.
O anúncio é cómico, é simples, é eficaz. Eleva a fasquia do disparate individual e privado e eu gosto disso.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

meio cheio meio vazio

Há uns dias atrás deparei-me com 3 garrafas antigas de Água da Bela Vista. Achei curioso que tivesse havido uma água proveniente do "famoso" bairro problemático de Setúbal, que há umas semanas atrás inundou os media. Não sendo uma conhecedora da história e da vida de Setúbal, tenho actualmente laços fortes à cidade e, daí, ter-me surpreendido ainda mais.

A problemática Bela Vista já me era teoricamente familiar e impressionou-me mais uma vez, na altura da exposição mediática, a forma como os meios de comunicação em geral se portam como abutres, indo buscar o que lhes interessa, como se o tivessem descoberto, para depois o abandonar quando já não lhes interessa.

Mas este post tem a ver com a água. A ideia de que neste bairro já existiu uma nascente de água capaz de produzir água de mesa é fascinante e impele-nos a questionar por que não se potencializa isso na "regeneração" do bairro. É claro que falo de cor (ou seja, do coração) e não faço a mínima ideia se tal ideia poderia ser aproveitada.

O que sei foi o que encontrei aqui e, ao que parece, a água era termal. Tinha efeitos terapêuticos reconhecidos, existindo casos e registos dos seus bons efeitos. Agora, a antiga zona de captação, marcada por uma torre, está ocupada por um supermercado e seu estacionamento. A água existiu até finais dos anos 60. Em 70, a Quinta da Bela Vista deixou de ser uma quinta para passar a ser uma urbanização social.

Às vezes, perguntamo-nos como é que tudo está às voltas, como é que as coisas chegam onde estão. E depois vamos reconhecendo os pequenos pontos no caminho e na falta de visão que nos impediu e impede tantas vezes de percorrê-lo no melhor sentido*. Seja como for, o que fazer com isto agora? Há-de haver algo.

Deixo então aqui uma imagem de uma garrafa da Água da Bela Vista. Esta um pouco ferrujenta e mais velha do que aquelas que encontrei, mas talvez mais fiel à visão actual do bairro.




*Enquanto andava às voltas à procura de coisas sobre esta água, deparei-me com um testemunho de uma professora da Escola Secundária da Bela Vista, que também cresceu no bairro. No texto, fala de quando ia buscar água à fonte, da escola em que andou e em que depois leccionou. Constata a sua mágoa pelo fim anunciado da escola, pois pelo que parece as escolas foram extintas/banidas do Bairro da Bela Vista. E mais uma vez vamos reconhecendo esses pontos de viragem decisivos.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Forçar a barra*

Já há que tempos que ando a olhar para a campanha de um cartão de crédito estrangeiro a tentar percebê-la. Apanha em expressões portuguesas que depois traduz em imagens. O conceito é giro. São expressões idiomáticas cujo duplo sentido pode dar azo às confusões que essas imagens apresentam.

Há o exemplo da bucha, que na expressão quer dizer sandes mas também aquele pedacinho de borracha que usamos para assegurar um bom trabalho de bricolage com os parafusos. Se formos ao dicionário, vimos que bucha é muito mais que isso, mas isso são outros 500 (olha, outra expressão sem preço). Há o exemplo do macaco, que é um animal mas que também é uma máquina de solevar grandes pesos. E ainda a história de dar corda à cebola, que confesso nunca tinha ouvido em toda a minha vida.



Está giro, ai que giro, embora com uma imagem duvidosa. Mas porquê? Por que raio estes senhores apresentam esta campanha? Ah, ok não tem preço, que é tipo uma assinatura da marca. Giro.

Mas a verdade é que eu olho para os outdoors, para os mupis, para a parafernália de coisas que eles têm espalhadas por aí e custa-me a perceber. Que eu saiba, estes senhores não são portugueses. Não há qualquer associação desta marca a uma ideia chanfrada de portugalidade.

Então leio isto e percebo (só para não me incomodar muito mais com este assunto). Faz parte de uma estratégia da marca de aproximação aos portugueses (e a outras culturas, porque noutros países fizeram o mesmo). É uma verdadeira estratégia de afirmação de posicionamento. Eu até acho bem. Lá está, é giro. Mas quem são estes senhores? Eles são caras anónimas e cinzentas que nos dão soluções de pagamento, crédito com juros será?, ou seja lá o que for. É só isso que são, uma mega gigante empresa que lucra com transacções. Apetece dizer "ei, amiguinhos, estamos em crise, sejam honestos, não há cá nós e não nos queiram falar ao coração, porque não cola".

Se calhar, simplesmente não percebi. Porque está giro.

*forçar a barra também é uma expressão idiomática do Brasil, acho. Não tem preço... principalmente porque ninguém cobra direitos. Se não, já estava a usar o meu cartão de crédito.