quinta-feira, 2 de julho de 2009

Bons momentos




Ontem vi a versão portuguesa deste anúncio do papel higiénico Colhogar e achei brilhante. Não estava minimamente à espera de nada do que se passa ali e fartei-me de rir.
Acho que tudo o que se passa numa casa de banho com papel higiénico tem potencial cómico. É o nosso lado mais infantil a rir-se da palavra "cocó" e dos puns dos outros.
Mas à parte disso, o que gosto mesmo é dessa ideia de que há um momento de fantasia e catarse individuais durante o tempo de sanita. Pensar naquele momento universal como um refúgio do indivíduo é algo cómico e generoso. É reconhecer em cada um de nós uma fracção exclusiva, única e que não é para partilhar. Mesmo que seja no cocó.
É generoso no sentido em que se reconhece no outro também esse espaço e essa "poesia". Ainda no passado fim-de-semana, pude testemunhar dois casais a discutirem a questão "tempo de lazer na sanita".
Seja com leituras rápidas (ou não...), seja sudoku ou palavras cruzadas, seja brincadeiras com o papel higiénico, seja simplesmente 3 minutos de puro silêncio (ou quase) e isolamento, é um momento que deve ser bom para quem nele está.
O anúncio é cómico, é simples, é eficaz. Eleva a fasquia do disparate individual e privado e eu gosto disso.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

meio cheio meio vazio

Há uns dias atrás deparei-me com 3 garrafas antigas de Água da Bela Vista. Achei curioso que tivesse havido uma água proveniente do "famoso" bairro problemático de Setúbal, que há umas semanas atrás inundou os media. Não sendo uma conhecedora da história e da vida de Setúbal, tenho actualmente laços fortes à cidade e, daí, ter-me surpreendido ainda mais.

A problemática Bela Vista já me era teoricamente familiar e impressionou-me mais uma vez, na altura da exposição mediática, a forma como os meios de comunicação em geral se portam como abutres, indo buscar o que lhes interessa, como se o tivessem descoberto, para depois o abandonar quando já não lhes interessa.

Mas este post tem a ver com a água. A ideia de que neste bairro já existiu uma nascente de água capaz de produzir água de mesa é fascinante e impele-nos a questionar por que não se potencializa isso na "regeneração" do bairro. É claro que falo de cor (ou seja, do coração) e não faço a mínima ideia se tal ideia poderia ser aproveitada.

O que sei foi o que encontrei aqui e, ao que parece, a água era termal. Tinha efeitos terapêuticos reconhecidos, existindo casos e registos dos seus bons efeitos. Agora, a antiga zona de captação, marcada por uma torre, está ocupada por um supermercado e seu estacionamento. A água existiu até finais dos anos 60. Em 70, a Quinta da Bela Vista deixou de ser uma quinta para passar a ser uma urbanização social.

Às vezes, perguntamo-nos como é que tudo está às voltas, como é que as coisas chegam onde estão. E depois vamos reconhecendo os pequenos pontos no caminho e na falta de visão que nos impediu e impede tantas vezes de percorrê-lo no melhor sentido*. Seja como for, o que fazer com isto agora? Há-de haver algo.

Deixo então aqui uma imagem de uma garrafa da Água da Bela Vista. Esta um pouco ferrujenta e mais velha do que aquelas que encontrei, mas talvez mais fiel à visão actual do bairro.




*Enquanto andava às voltas à procura de coisas sobre esta água, deparei-me com um testemunho de uma professora da Escola Secundária da Bela Vista, que também cresceu no bairro. No texto, fala de quando ia buscar água à fonte, da escola em que andou e em que depois leccionou. Constata a sua mágoa pelo fim anunciado da escola, pois pelo que parece as escolas foram extintas/banidas do Bairro da Bela Vista. E mais uma vez vamos reconhecendo esses pontos de viragem decisivos.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Forçar a barra*

Já há que tempos que ando a olhar para a campanha de um cartão de crédito estrangeiro a tentar percebê-la. Apanha em expressões portuguesas que depois traduz em imagens. O conceito é giro. São expressões idiomáticas cujo duplo sentido pode dar azo às confusões que essas imagens apresentam.

Há o exemplo da bucha, que na expressão quer dizer sandes mas também aquele pedacinho de borracha que usamos para assegurar um bom trabalho de bricolage com os parafusos. Se formos ao dicionário, vimos que bucha é muito mais que isso, mas isso são outros 500 (olha, outra expressão sem preço). Há o exemplo do macaco, que é um animal mas que também é uma máquina de solevar grandes pesos. E ainda a história de dar corda à cebola, que confesso nunca tinha ouvido em toda a minha vida.



Está giro, ai que giro, embora com uma imagem duvidosa. Mas porquê? Por que raio estes senhores apresentam esta campanha? Ah, ok não tem preço, que é tipo uma assinatura da marca. Giro.

Mas a verdade é que eu olho para os outdoors, para os mupis, para a parafernália de coisas que eles têm espalhadas por aí e custa-me a perceber. Que eu saiba, estes senhores não são portugueses. Não há qualquer associação desta marca a uma ideia chanfrada de portugalidade.

Então leio isto e percebo (só para não me incomodar muito mais com este assunto). Faz parte de uma estratégia da marca de aproximação aos portugueses (e a outras culturas, porque noutros países fizeram o mesmo). É uma verdadeira estratégia de afirmação de posicionamento. Eu até acho bem. Lá está, é giro. Mas quem são estes senhores? Eles são caras anónimas e cinzentas que nos dão soluções de pagamento, crédito com juros será?, ou seja lá o que for. É só isso que são, uma mega gigante empresa que lucra com transacções. Apetece dizer "ei, amiguinhos, estamos em crise, sejam honestos, não há cá nós e não nos queiram falar ao coração, porque não cola".

Se calhar, simplesmente não percebi. Porque está giro.

*forçar a barra também é uma expressão idiomática do Brasil, acho. Não tem preço... principalmente porque ninguém cobra direitos. Se não, já estava a usar o meu cartão de crédito.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

À nossa!

No fim de semana, foi o Dia do Vinho. Embora não o tenha celebrado efectivamente no fim-de-semana nem sequer ter participado nesse evento, gostei da ideia de pegar numa garrafa especial, abri-la e saborear o seu interior, só para comemorar esse privilégio de termos uma tão boa cultura vinícola no nosso país.

A pensar nisso e não podendo partilhar aqui um copinho, decidi partilhar o exterior de algumas garrafas de vinho. Não faço ideia como será o vinho que contém, mas que têm um belo visual, disso não há dúvidas.






Um rótulo ou uma embalagem têm um grande poder de atracção sobre o consumidor, mas este é tão variável que não há fórmulas perfeitas que resultem com toda a gente.

Se uma embalagem como esta me impeliria para comprar o vinho, será que poderia influenciar o meu gosto sobre ele? Até que ponto vai a força da imagem?

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Estranho

Não há como contornar hoje esta notícia da morte do Michael Jackson. Um ícone desta dimensão, que atravessou décadas mantendo o epíteto de Rei da Pop (mesmo quando não fazia nada de jeito), leva consigo um vazio, trazendo o choque da notícia. É algo que não se está à espera: o Michael Jackson morrer.

Não sou particularmente fã. Melhor dizendo, gosto muito de algumas músicas dele, cujo talento é indiscutível. Mas a figura deixou de me cativar. Não fui indiferente à mutação nem às acusações criminais, fundando-se em mim uma inevitável repugnância.

No entanto, era o Rei da Pop e isso não é para pôr em causa. O disco mais vendido de sempre é dele e agora ainda mais.

A estranheza da notícia acompanha a estranheza da sua própria vida (ao contrário da sua música, nada estranha). Esta é uma figura ímpar a nível artístico e mediático, ao nível da ainda viva Madonna e de muitos outros mortos que são únicos e incomparáveis (a lista seria longa, mas basta um Elvis para equiparar).

Não se descola da nossa cultura a figura de Michael Jackson. Ele está lá e aí permanecerá nas suas mil caras. E esperemos na sua música. Eu deixo uma cara do início, em que tudo ainda estava por trilhar, o início do ícone, da música, da bizarria. A simples promessa de génio.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

à nossa imagem

Esta campanha para a adopção coloca o dedo na ferida. Um dos desejos dos pais é ter filhos à sua imagem. Uma expectativa absoluta e quase inconsciente de encontrarem nos seus filhos um reflexo de si mesmos. É natural, é normal.

Por isso, em muitos casos de adopção principalmente em casais que não podem ter filhos, imprime-se essa vontade: encontrar um bebé que se pareça fisicamente com os progenitores.

O que esta campanha nos diz é extremamente simples: os nossos filhos serão sempre nossos. E isso tem a ver com a escolha e tem a ver com o amor. Pode haver amor sem escolha, mas dificilmente há escolha sem amor, quando se trata de crianças. Talvez porque elas parecem ter sido feitas com esse ingrediente secreto. Foram feitas para serem amadas. Quem adopta, quem faz uma escolha por uma criança, sabe disso. Eu escolhi amar esta criança, e isso é decisivo. É isso que a torna nossa.

E será sempre à nossa imagem. Pois não há reflexo mais profundo na personalidade de uma criança do que a dos seus pais. Pode não ser tão evidente, nem tão "bonito", como as feições, mas é muito mais poderoso.


quarta-feira, 24 de junho de 2009

o valor social da coisa

Um dos dilemas persistentes neste meio, ou pelo menos nalgumas pessoas (pronto, em mim), é o valor social da comunicação, o seu contributo para a sociedade. O design não vai salvar o mundo, como diz a imagem aqui do lado, mas pode dar um jeitinho ou, pelo contrário, estragar tudo.

Aprendi a viver com isso e, nos entretantos, vou encontrando formas de colocar esta especialização da comunicação a favor de valores positivos para a sociedade. Quem somos define o que fazemos e, por isso, uma parte de nós também é definida pelo que fazemos. Manter essa dialéctica em equilíbrio é uma luta constante da qual nem sempre temos consciência.

Ter noção do que se transmite e do impacto que pode criar nos outros é um passo decisivo para podermos contribuir subtilmente para mudanças sociais e de mentalidades ou, pelo menos, não ajudar a manter códigos negativos.

Dentro desta reflexão, há no entanto momentos na profissão Comunicação em que podemos mesmo ajudar a uma sociedade melhor. Quando o cliente é uma organização com objectivos sociais, é como se finalmente estivéssemos do lado certo e, em vez dos sabonetes, podemos "vender" causas.

A Osocio é uma organização que promove publicidade social e campanhas não-lucrativas a nível internacional. Lançou recentemente uma campanha para publicitários, promovendo isso mesmo, provocando-os a envolverem-se em causas da forma mais eficaz que têm ao seu dispor: a sua ferramenta de trabalho. A campanha, muito bem esgalhada, pega numa característica infelizmente comum neste meio, a vaidade e uma certa snobeira, comparando os prémios que se ganham a causas realmente importantes.

É também por isso que, às vezes só às vezes, esta profissão é apaixonante. Não só pelo que podemos comunicar, mas também pela faísca da ideia - aquele momento em que encontramos uma forma realmente boa de fazer passar uma mensagem, mas isso já é outra história.